A expressão dar a mão é sinal de companheirismo, de caminhar convictamente no mesmo sentido. Vem isto a propósito de um dia destes, em relação à aprovação da nova prestação social, uma publicação dizer que “o PS deu a mão ao Executivo” por aquele ter-se abstido na votação no Parlamento. Ninguém anda de mão dada quando anda às avessas, às cabeçadas. Compreendo que foi uma força de expressão do jornalista, mas não creio que tenha havido um acto convicto. Na verdade, o Governo tinha o propósito de não deixar perder umas centenas de milhões de euros para o país, pelo que precisava que algum dos grandes partidos da oposição não condicionasse o objectivo e diga-se também que o partido que acabou por ajudar precisava de não ficar mal na fotografia, ao mesmo tempo que obteria alguns ganhos de causa. Parece-me que foi um dar a mão, não direi forçado, mas algo interesseiro. O Executivo conseguiu o objectivo e o Partido Socialista não podia ser acusado de fazer com que o país perdesse umas boas massas que tanta falta faz às necessidades públicas. Ao que transpareceu das palavras da Ministra da Solidariedade e da Segurança Social, o Governo teria preferido outra mão em vez da que lhe foi dada ou até de duas mãos em vez de uma só, mas foi o que se arranjou. Em todo o caso, foi melhor assim, ainda que este tivesse de ceder nas intenções ou, pelo menos, nas expressões utilizadas no anúncio da medida, se se partir do princípio que foram genuínas as palavras do líder parlamentar social democrata de que as tais expressões iniciais de discórdia, não apenas com o Partido Socialista, mas também com o resto da esquerda, eram afinal só de oratória, não de substância. Ficará sempre a dúvida, mas a mão na mão adiou para mais tarde o que naturalmente revelará que ambos os partidos não morrem de amores um pelo outro, antes pelo contrário. Como o texto que iniciei é de opinião, não posso ficar pela observação, pelo que aqui deixo a minha posição pessoal: só concordo com os termos da medida se os apoios prestados a quem deles beneficiar exigirem da parte dos requerentes, sempre que viável e for razoável, as contrapartidas dos beneficiários, por forma a que a Prestação Social Única (PSU) não seja incentivo de inactividade voluntária por parte de quem a recebe. A solidariedade social não prescinde de responsabilidades de parte a parte, nem da procura activa de soluções, sem caridadezinha, mas com verdadeiro respeito solidário.
2. Dar a mão por calculismo é detestável. Acho que na política também deveria ser assim. Pessoalmente, prefiro a discórdia aos convénios calculistas que, na maioria das vezes, acabam mal. É mais transparente e verdadeiro seguir a boa intenção, os princípios pessoais ou estatutários de uma organização, se for o caso, mesmo sem dar a mão, sem concordar, do que assinar algo só para impressionar, sobreviver ou ficar bem na fotografia. Dar a mão, de verdade, é alinhar, compartilhar, co-responsabilizar-se, lutar em conjunto por uma causa justa, é defender alguém injustiçado ou que precisa de ajuda. Dando as mãos, o resultado é sempre melhor. Quem verdadeiramente dá a mão respeita o outro, é corajoso ao invés do calculista, desarma-se para se dar. Às vezes também se diz que este ou aquele deram as mãos para fazer a guerra, mas nesse caso a expressão está a ser utilizada por oportunismo, para um resultado individualista e interesseiro. Dar as mãos deve ser um gesto amizade, de compreensão, de respeito, de bem querer, de humanismo, de bem colectivo, enfim, um movimento para um bem maior, um sinal de inconfundível desinteresse pessoal. Dar a mão não é abster-se.