O calor já convida a ir a banhos e a aproveitar os dias cada vez mais longos de sol – mas, para muitos jovens, junho e julho têm outro significado: a época de exames nacionais de acesso ao ensino superior. Ao longo das últimas décadas, o peso dos exames nacionais na classificação final de acesso tem variado, fruto de sucessivas reestruturações curriculares. Mas há um denominador que permanece inalterado: a sua relevância na nota final continua a ser elevada, o que acentua a centralidade das classificações dos exames nacionais como determinante para o futuro. Naturalmente, isto faz com que estes meses se afirmem como períodos de elevada tensão emocional; para muitos jovens, os exames são percecionados não como uma avaliação pontual, mas como um momento definidor da trajetória de vida.
A importância deste momento na vida dos jovens transforma-o, muitas vezes, numa fonte permanente de stress. Mas, afinal, de onde vem toda a pressão que marca este período? Na verdade, não tem uma causa única; antes, é fruto de uma pluralidade de fatores que, sozinhos ou agrupados, conduzem a níveis mais ou menos elevados de stress. No que diz respeito às exigências internas de cada indivíduo, surgem à cabeça fatores como o perfeccionismo, o medo de falhar ou a autoexigência extrema. Já no que diz respeito às condicionantes externas, as expectativas parentais, a comparação permanente com os pares e o discurso escolar centrado em resultados parecem ser os pontos fulcrais. Por fim, com igual relevância, surge a pressão sociocultural, em que a narrativa de sucesso meritocrático, o medo da precariedade laboral futura e a necessidade de “não ficar para trás” assumem particular relevo. Conjugados todos estes fatores, torna-se evidente que muitos jovens sentem que não estão apenas a fazer um exame, mas sim a provar o seu valor.
Importa aqui, no entanto, fazer a distinção entre o stress adaptativo, capaz de mobilizar de forma positiva a pessoa para atingir os seus objetivos, e o stress tóxico, que exerce um efeito de tal forma nocivo que compromete o desempenho e o bem-estar. No fundo, níveis moderados de stress podem melhorar a performance, enquanto o stress “em excesso” se torna prejudicial.
Períodos de transição exigentes, como o acesso ao ensino superior, podem ter impacto significativo na saúde mental dos jovens. Manifestações como ansiedade antecipatória, insónia, irritabilidade, exaustão emocional, somatização (náuseas, cefaleias, palpitações) e, em casos mais graves, sintomas depressivos e ataques de pânico, são comuns entre a população juvenil, nesta altura do ano.
Estes sintomas, sobretudo a ansiedade, podem ser amplificados pelas redes sociais, uma vez que a pressão para os jovens não termina à saída da escola, mas acompanha-os permanentemente no ambiente digital. As redes sociais exacerbam, não raras vezes, comparações sociais, exposições a narrativas de hiperprodutividade e rotinas de estudo alegadamente perfeitas, conduzindo a rankings implícitos entre colegas e sentimentos de inadequação.
Face a esta realidade, importa reconhecer a existência de fatores protetores e de vulnerabilidade individuais, que fazem com que nem todos os jovens reajam da mesma forma e que devem ser tidos em conta na proteção da saúde mental de cada indivíduo. Como fatores de risco, podemos apontar história prévia de ansiedade, baixa autoestima, fraca regulação emocional, famílias altamente exigentes ou pouco suporte social. Quanto aos fatores protetores, destacam-se o ambiente familiar seguro, um sono adequado, estratégias de coping eficazes, a atividade física regular e um suporte psicológico ou escolar adequados, sempre que necessário.
Perante este cenário, impõem-se algumas questões: O problema está na fragilidade dos jovens? Ou no sistema educativo? Avaliamos conhecimento, ou resistência à pressão? São questões que merecem resposta, e que nos devem levar a refletir sobre a sociedade que temos, mas também na sociedade que estamos a criar, tendo como foco a saúde das populações. O debate sobre saúde mental no contexto dos exames nacionais não deve centrar-se apenas em aumentar a resiliência dos jovens, mas também em questionar sistemas que normalizam níveis elevados de sofrimento psicológico como preço do sucesso académico.