30 de junho é o Dia Mundial das Redes Sociais. A iniciativa partiu de Pete Cashmore, fundador do site de tecnologia e notícias Mashable, em 2010, como forma de reconhecer a revolução digital que fez dos media um ambiente social. Se é certo que a expressão “rede social” se popularizou e passou a ser aplicada sobretudo às plataformas digitais, convém recordar que, na sua primeira aceção, remete para uma estrutura de relações sociais composta por pessoas, grupos ou organizações, ligadas por um ou vários tipos de relações.
As Redes Sociais Digitais são plataformas que ligam pessoas, instituições e marcas, permitindo comunicar e acompanhar notícias, partilhar ideias e conteúdos, criar comunidades, manter contacto com familiares e amigos, mesmo à distância. Plataformas como o Instagram, o Facebook, o TikTok e o WattsApp, para nomear apenas algumas das mais conhecidas, são instrumentos ao alcance de (quase) todos e onde, a dizer a verdade, tudo acontece, acontece de tudo e até fazem acontecer muita coisa. Sem especial censura e mediação, dão aso a que cada um as use como quer, com objetivos nem sempre claros e, por vezes, de forma pouco ética. A sensação de impunidade faz com que o seu mau uso, infelizmente, se generalize.
É um facto que as redes sociais digitais apresentam inúmeras vantagens ou benefícios: aproximam pessoas fisicamente distantes; facilitam a comunicação, o acesso rápido à informação e a partilha de conhecimento; ajudam na divulgação de projetos e negócios; permitem dar visibilidade a causas sociais, culturais e solidárias; e podem ser ferramentas muito úteis para a aprendizagem e a criatividade.
Apresentam, contudo, algumas desvantagens e o seu uso desregrado pode trazer inúmeros problemas. Passar demasiado tempo online prejudica as relações presenciais e o bem-estar físico e psíquico. A sua utilização excessiva cria dependência1, que é gerada por diversos fatores: recompensa variável2, dopamina3 e antecipação, feedback social4, rolagem (scroll) infinita e ausência de “fim”5, personalização por algoritmos6, comparação social7, fuga de emoções desconfortáveis e medo de ficar de fora8. É frequente acontecer, por isso mesmo, o ciberbullying e o discurso de ódio, as fraudes e os crimes informáticos, a par da desinformação e da propagação de notícias falsas.
Além disso, as redes sociais digitais criam a falsa sensação da imediatez das coisas, da recompensa instantânea e do estímulo contínuo, a falsa sensação de que há sempre mais para ver, de que sou visto e olhado por muita gente, de que nunca estou sozinho. Contudo, na vida, as coisas não são assim: “crescer demora muito tempo, cair é um risco muito real, tão real que, de facto, caio; existem subidas e descidas, as coisas são complexas e exigem trabalho; os resultados são, uma vezes, tímidos, outras vezes, demorados; sou confrontado com o facto de não controlar tudo ou de controlar muito pouca coisa”9.
A única solução para combater estes exageros e riscos é o discernimento (espírito crítico), a responsabilidade e cuidado com a dignidade humana10, o que supõe uma literacia digital que incentive a utilização consciente, segura e equilibrada destas ferramentas. Usar as redes sociais digitais de forma equilibrada e responsável exige que se pense antes de publicar, que se proteja os dados pessoais e se saiba distinguir a informação verdadeira da falsa.
Quando bem usadas, as redes sociais podem ser uma ferramenta positiva que aproxima pessoas e facilita o acesso ao conhecimento. Em contexto cristão, estas plataformas digitais prestam-se ao anúncio do evangelho e ao testemunho da fé com autenticidade. Online ou offline, o cristão é sempre o mesmo: coerente, humilde, respeitador, capaz de ouvir e disposto a dialogar; cultiva a interioridade, evita a agressividade e os insultos, não humilha nem difama e procura a verdade antes de a partilhar.
A Igreja olha para estas ferramentas como meios poderosos ao serviço da verdade, da comunhão e da evangelização, se usados com prudência, responsabilidade e caridade11.
* Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)
1 É inquestionável que as redes sociais digitais foram desenhadas para captar e manter a atenção. A dependência acontece quando a utilização deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser automática: “peguei no telemóvel sem pensar”, “ia ver uma coisa e passaram duas horas”.
2 Ao abrir uma rede social digital, nunca se sabe o que vai aparecer: uma mensagem, um comentário, uma notícia interessante, um vídeo engraçado... Essa incerteza cria um ciclo parecido com outros sistemas de recompensa: o cérebro tende a repetir comportamentos quando existe a possibilidade de uma recompensa inesperada.
3 A dopamina está ligada à motivação, aprendizagem e procura de recompensas. Muitas vezes, o pico não acontece apenas ao receber um like ou comentário, mas na expetativa de verificar se algo de novo aconteceu.
4 Os seres humanos evoluíram para valorizar aceitação, pertença e estatuto dentro de grupos. Likes, seguidores e comentários funcionam como sinais sociais que podem ativar esses mecanismos.
5 Uma revista acaba e um programa termina, ao passo que as redes sociais digitais usam feeds contínuos, recomendações e reprodução automáticas, reduzindo os momentos naturais em que a pessoa decide parar.
6 As plataformas aprendem aquilo que prende mais a atenção de cada pessoa e mostram mais desse tipo de conteúdo, o que cria uma experiência cada vez mais ajustada aos interesses individuais.
7 Ver constantemente versões selecionadas da vida dos outros pode aumentar a vontade de acompanhar, comparar ou procurar validação.
8 Dado que o alívio parece ser rápido, recorrer às redes sociais digitais quando se está aborrecido, ansioso, cansado ou desconfortável, cria habituação fácil. Além disso, a sensação de que algo importante pode estar a acontecer sem nós incentiva verificações repetidas.
9 Duarte Rosado, “É urgente contar histórias”, in Família Carmelita, Ano XXX (nº 98), Dezembro de 2024, p. 6.
10 Cfr. Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais, A Igreja e a Internet, nº 5.
11 Vale a pena ler o que, a propósito, diz o Papa Francisco na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christus Vivit, nºs 86-90.