Quando acontece um terramoto, as primeiras notícias chegam com a magnitude, o número de vítimas, os feridos e as casas destruídas. Precisamos desses números para compreender a dimensão da tragédia, mas a experiência humana nunca cabe numa estatística.
Quando a terra treme, não são apenas os edifícios que caem. Cai também uma das crenças mais silenciosas sobre as quais organizamos a nossa existência: a de que o mundo permanecerá igual quando acordarmos amanhã.
Vivemos convencidos de que a casa continuará à nossa espera e de que haverá sempre tempo para concretizar os planos adiados. Um terramoto desfaz essa ilusão em poucos segundos. O que parecia sólido e permanente, revela-se frágil e transitório.
Há uma perda que os números nunca conseguem traduzir: a perda da casa. A casa é uma necessidade: é o lugar onde dormimos, encontramos abrigo e guardamos tudo o que precisamos para viver. Quando um terramoto a destrói, muitas pessoas ficam, de um momento para o outro, sem teto, sem roupas, sem documentos, sem medicamentos e sem os bens mais básicos. Perdem o espaço onde a vida quotidiana acontecia e enfrentam a incerteza de não saber onde irão viver no dia seguinte.
Mas perder uma casa nunca é apenas perder uma casa: é perder um lugar no mundo. Uma casa nunca é apenas uma construção de tijolo e cimento. É também um lugar de pertença. Quando desaparece, desaparecem também os cheiros, os sons familiares e os objetos que contavam a história de uma família. Perdem-se fotografias, cartas, brinquedos e recordações de quem já partiu. Há perdas que nunca poderão ser recuperadas porque não têm substituto. E, muitas vezes, perde-se também a possibilidade de regressar ao lugar onde a vida acontecia tal como a conhecíamos.
Mas há outra perda quase invisível. Num mundo marcado pelas migrações, um terramoto não atinge apenas quem sente a terra estremecer. Atinge também quem acompanha tudo à distância. Pais, filhos, irmãos e amigos espalhados pelo mundo repetem o mesmo gesto: enviam uma mensagem e esperam. É nessa espera que nasce um sofrimento silencioso. O tempo suspende-se. A imaginação ocupa o lugar da informação. Há dores que começam antes da confirmação de uma perda; nascem da possibilidade de ela acontecer. E, por isso, duas palavras podem significar tanto: "Estamos bem."
Os desastres naturais lembram-nos da vulnerabilidade humana, mas revelam também aquilo que verdadeiramente sustenta uma vida. Quando tudo parece ruir, não procuramos primeiro os objetos. Procuramos pessoas. Um nome numa lista de sobreviventes. Uma chamada. Uma voz conhecida. Porque, no momento em que a terra treme, percebemos que a nossa verdadeira casa nunca foi feita apenas de paredes. Sempre foi feita de relações.
Enquanto escrevo estas palavras, milhares de famílias vivem esta realidade por causa do terramoto que atingiu a Venezuela. Algumas enfrentam a dor da morte. Outras continuam sem saber onde estão os seus familiares. Muitas esperam apenas por uma resposta.
Também eu esperei por notícias de familiares. Há esperas que suspendem o tempo, em que um minuto parece uma hora. Nesses momentos percebemos que um terramoto nunca destrói apenas aquilo que vemos. Destrói casas, rotinas, memórias, projetos, lugares de pertença e a tranquilidade de milhares de famílias. Os escombros são a parte mais visível da tragédia, mas as perdas mais profundas permanecem quando o mundo deixa de olhar para elas.
Há dias em que as palavras mais importantes do mundo cabem apenas em duas: "Estou bem."