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A monstra

 

 

O crime que espantou toda a gente, foi o daquela madrasta que esganou a enteada com as próprias mãos, por ciúmes de um amor de pai. Esta “assassina” como lhe chamaram os populares à sua passagem para a Judiciária, não fez este ato horrível num impulso de cólera, ou num repente de desequilíbrio mental. Não posso crer que ao estrangular uma criança inocente não tivesse um rebate de consciência e a não a largasse naquele estrebuchar que fazem os que por asfixia lutam para respirar. Esta assassina premeditou o seu crime demonstrando um caráter sem valores de dó que a fizessem arrepiar caminho. Hoje o País está chocado, absorto na enormidade do crime e não sabe explicar como reagiu esta tresloucada perante a inocência duma criança. A defesa vai alegar que no momento do crime, ela estava possuída por um perfil psicopata, isto é, não estava de posse de todas as suas faculdades mentais. E a prova disso, e como atenuante, é que foi ela quem confessou o crime e indicou onde estava o cadáver da criança de oito anos. E mais este e aquele processo de a tornar irresponsável, logo inimputável. Choca-me saber que os argumentos de defesa sirvam para tudo como a chave de fendas que cabe em qualquer ranhura. Não deve haver atenuantes para estes crimes sob pena de tornarmos acessório o que é a base moral de uma civilização: direito à vida. Não é o castigo que sara a ferida deixada em aberto, mas todo o ato tem consequências, sob perigo de entrarmos numa sociedade em trânsito para a barbárie. Como transformar uma psicopata numa pessoa de bem? Demonstrando-lhe que o seu castigo, é a única moeda de apaziguamento. O remorso é a voz que se não cala, fala de noite e de dia, mas se há quem não tenha esta voz, então estaremos na presença de uma psicopatia. Remorso e arrependimento são irmãs gémeas mas têm as sua diferenças que as distingue como dois líquidos não miscíveis, porque o remorso é uma expiação e o arrependimento é uma confissão. O crime que arrepiou Portugal é de tal enormidade que espanta as almas e transcende as consciências. Crime e Castigo de Dostoievski descreve, como ninguém, que a paz de espírito de um assassino só encontra alívio na expiação. Mas a tal voz do silêncio, mesmo assim, não se cala. Que seja este o verdadeiro castigo para a madrasta assassina.

Paulo Fafe

Paulo Fafe

29 junho 2026