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OS DIAS DA SEMANA “Prezava a verdade"

 


 


 

Ofuscando o brilho dos Santos Populares, os jogadores de futebol parecem ser os únicos heróis destes dias quentes de Junho: heróis antigos, umas vezes, como Messi ou Ronaldo; novos e improváveis, outras vezes, como Josimar Dias, ou Vozinha, o guarda-redes cabo-verdiano que após um jogo de feição passou de 50.000 seguidores no Instagram para mais de 16 milhões. O tempo afigura-se, aliás, apropriado para listar os maiores heróis da bola de todos os tempos. Alfredo Di Stéfano, Pelé, Johan Cruyff, Diego Armando Maradona, Cristiano Ronaldo e Lionel Messi são considerados como deuses pelo jornalista Alfredo Relaño, autor do livro 366 Futebolistas de todos os tempos que fizeram história, recentemente publicado em Espanha.

Mas os futebolistas não são os únicos heróis. Em vez de Kylian Mbappé, que também figura no livro de Alfredo Relaño, a França honrou Marc Bloch, levando-o, com a sua mulher Simonne Vidal, para o Panteão, na terça-feira, dia 23 de Junho. A generalidade dos textos que têm sido publicados na imprensa francesa e internacional coincide em relação ao que caracteriza este homem: espírito brilhante, renovador da ciência histórica (o fundador da Escola dos Annales “é simplesmente o maior historiador medievalista do século XX”, escrevia ontem no diário espanhol El País a historiadora Ana Rodríguez [1]), intelectual comprometido, patriota, resistente, etc. A lista, extremamente longa, tem servido para estimular a redescoberta de um homem com uma vida e obra excepcionais.

Veterano da Primeira Grande Guerra, devidamente condecorado, alistou-se de novo quando a França entrou na Segunda Guerra Mundial em 1939. Fê-lo quando tinha 53 anos, já sem idade para ser mobilizado. Depois da capitulação francesa, incorporou a Resistência. Foi executado pelos nazis no dia 16 de Junho de 1944, depois de ter sido torturado na prisão de Montluc, em Lyon, pela Gestapo, sem jamais falar. “Mas, para além de sua morte heróica, não cessamos de ser impressionados pela lucidez do intelectual, pela acuidade das suas análises”, escreveu Christine Pedotti, chefe de redacção de Témoignage Chrétien [2].

Dilexit veritatem” – “Prezava a verdade" – foi a inscrição que Marc Bloch indicou no testamento, redigido em 1941, para ficar inscrita no seu túmulo. “Considero a complacência perante as mentiras, seja a que pretexto for, como a pior lepra da alma”, uma consideração que é hoje, outra vez, particularmente pertinente.

Christine Pedotti detecta certas similitudes entre a República Francesa laica e o catolicismo, designadamente na panteonização, cuja semelhança com a canonização lhe parece óbvia. “Os Grandes Homens e Mulheres da nação são erigidos como modelos, tal como os santos dos nossos calendários, no fim de uma investigação que nada deixa a invejar aos processos das causas de canonização”, observa a jornalista, considerando que a necessidade de exemplos, de heróis, é algo comum a todos os grupos humanos – “e, sejamos justos, é melhor homenagear um homem da têmpera de Marc Bloch do que seguir qualquer influenciador nas redes sociais”. E o historiador, diz ela, demonstrou uma rectidão nos seus compromissos intelectuais e morais que desperta admiração.

O ateu Marc Bloch é qualificado por Sixtine Chartier, na revista La Vie, como um “santo laico”, designadamente pela sua integridade e pelo seu sacrifício supremo. A redescoberta da sua vida e obra oferece aos cristãos uma bússola espiritual e cívica poderosa. A revista refere três razões para a ressonância de Marc Bloch [3].

Em primeiro lugar, encontra-se a exigência de verdade. Na sua obra fundadora, Apologia da História ou o Ofício de Historiador (Almedina, 2025), Marc Bloch combate a mentira e as ideias preconcebidas. A busca pela verdade histórica faz ecoar o apelo bíblico para discernir “os sinais dos tempos” e lembra aos cristãos que a sua fé exige rigor intelectual diante da desinformação.

A seguir, surge o sentido da encarnação. Medievalista genial, autor de Os Reis Taumaturgos (Companhia das Letras, 2018), obra que analisa a fé e os mitos colectivos, possuía uma profunda compreensão do facto religioso. A sua abordagem coloca as aspirações espirituais no centro da compreensão das sociedades.

Finalmente, emerge o martírio em nome do compromisso. Judeu patriota, Marc Bloch recusou o colapso moral da França, juntando-se à Resistência, o que lhe valeu ter sido torturado e fuzilado pela Gestapo. A sua vida encarna até ao fim o dom de si, um valor evangélico fundamental.

Como Sixtine Chartier sugere, a redescoberta deste homem singular proporciona a crentes e não crentes uma inspiração única pelo modo admirável como soube articular exigência intelectual, coragem moral e sentido do bem comum.


 


 

[1] Ana Rodríguez – “Marc Bloch, un historiador y resistente entra en el Panteón”. El País, 27 de Junho de 2026

[2] Christine Pedotti – “Auréole républicaine”. Témoignage Chrétien, 25 de Junho de 2026

[3] Sixtine Chartier – “Marc Bloch au Panthéon : pourquoi les chrétiens devraient relire ce «saint laïque»”. La Vie, 22 de Junho de 2026

Eduardo Jorge Madureira Lopes

Eduardo Jorge Madureira Lopes

28 junho 2026