Foram vários os combates travados por Jean Ziegler. Todos entabulados em nome da democracia e dos valores que fundam a nossa civilização, designadamente a solidariedade e a justiça. Sociólogo, deputado federal pelo Partido Social Democrata, relator especial da ONU para o direito à alimentação, membro do Comité Consultivo do Conselho de Direitos Humanos da ONU e um dos mais famosos intelectuais suíços, morreu no dia 10 de Junho. Tinha 92 anos.
Os portugueses puderam conhecer, há 50 anos, uma das suas grandes preocupações, com a publicação de A Suíça acima de qualquer suspeita. O livro, editado pela Perspectivas & Realidades, em 1976, apresentava-se como uma vigorosa denúncia de um país que enriquecia com as desgraças alheias. A obra valeu-lhe nove processos em cinco países e dois atentados. Regressaria ao tema com A Suíça lava mais branco, publicado em Portugal em 1990, pela Editorial Inquérito. Não por acaso, Jean Ziegler foi considerado como “a vergonha da Suíça” [1].
O rótulo não deixa de ser uma espécie de homenagem a um homem valente. Coragem foi o que não lhe faltou na luta contra o crime organizado. Em Lisboa, no Hotel Altis, no dia 9 de Fevereiro de 1999, Jean Ziegler considerou-o como a primeira ameaça aos valores da nossa civilização. Na iniciativa promovida pela Fundação Friedrich Ebert, insistiu na absoluta urgência de evitar que a Europa se transformasse numa selva dominada por novos “senhores do crime”. Ao lado deles, os mafiosos sicilianos são quase ridículos, considerou. É que, como explicava, os novos criminosos funcionam com recurso a um tipo de organização militarizada. Além de tropas próprias, dispõem de peritos em diversos domínios que os ajudam a contornar os obstáculos que possam impedir o livre curso das múltiplas actividades ilegais que desenvolvem.
A nova criminalidade, explicava Jean Ziegler, além de ser extremamente eficaz e violenta, estava a misturar-se com os circuitos legais e a penetrar no tecido político e social da Europa.
As conversas que manteve com autoridades policiais e judiciais de vários países e a exaustiva investigação que realizou durante quatro anos deram origem ao livro Senhores do crime – As novas máfias contra a democracia, publicado pela Terramar em 1999.
A responsabilidade decisiva no desenvolvimento dos quase seis mil cartéis criminosos que se espalharam por todo o continente europeu foi imputada à onda liberalizadora que o tinha varrido (e parece que continuará a varrer enquanto os Estados tiverem algo para escorropichar).
A introdução dos capitais criminosos nos circuitos legais e a lavagem de dinheiro eram, de resto, como Jean Ziegler então avisava, susceptíveis de evoluir de tal modo que deixaria de fazer sentido falar de uma diferença entre capitais legais e capitais criminosos.
Jean Ziegler também se empenhou firmemente na luta contra a fome no planeta.
No livro A fome no mundo explicada ao meu filho, publicado pela Terramar em 2004, construído segundo o modelo pergunta e resposta, o sociólogo apresenta-se simples e directo. À pergunta: “A fome não é uma fatalidade?”, responde claramente: “De modo nenhum! Se a distribuição dos alimentos sobre a Terra fosse justa, haveria comida à vontade para todos”.
Numa entrevista concedida ao SWI swissinfo.ch, serviço online internacional da Sociedade Suíça de Rádio e Televisão, em 25 de Abril de 2022 [2], o antigo relator especial da ONU para o direito à alimentação indicava dados da FAO, que estabelecem que “a cada cinco segundos uma criança com menos de dez anos de idade morre de fome ou das suas consequências imediatas”. O relatório que estava a citar assinalava ainda que “a agricultura mundial, tal como é agora, normalmente poderia alimentar 12 mil milhões de pessoas”. Hoje alimenta pouco mais da metade. O respeito pelo direito à alimentação quase duplicaria o número de pessoas nutridas. Para Jean Ziegler, “uma criança que morre de fome foi, na verdade, assassinada”.
Sobre o presente e o futuro, Jean Ziegler não se mostrou optimista na entrevista ao SWI swissinfo.ch: “Hoje é possível termos uma guerra na Europa. É um momento horrível de regressão. Talvez o Ocidente tenha cometido um erro”. Falando antes da reeleição de Donald Trump, o sociólogo considerou Vladimir Putin como “um perigo para a humanidade, não só para a civilização europeia, mas também para a paz mundial. Putin é um assassino em massa. E os chineses também oprimem os uigures”. Jean Ziegler deplora o “total desrespeito pelos direitos humanos” e manifesta-se contra os modelos de sociedade fundadas nos valores que estão nos antípodas do que as pessoas buscam. Infelizmente, diz ele, esses modelos que rejeitam a liberdade, a igualdade e a fraternidade estão a tornar-se cada vez mais poderosos. É preciso enfraquecê-los. Jean Ziegler costumava dizer que, para amar as pessoas, era preciso lutar contra aquilo que s oprime.
[1 e 2] Alexander Thoele – “Jean Ziegler: porque o capitalismo é tão ruim”.
SWI swissinfo.ch, serviço online internacional da Sociedade Suíça de Rádio e Televisão, 25 de Abril de 2022
PS: Uma versão mais extensa deste texto foi publicada no 7 Margens.