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“Magnifica Humanitas” (4)

 


 

 


 

1… O cap. IV, “Salvaguardar o humano na transformação”, versa sobre "mudanças profundas na comunicação pública e política" que a utilização de plataformas digitais e sistemas de IA aceleram; ora, tais ferramentas "poderiam favorecer o debate e a participação", mas "são frequentemente utilizadas para construir narrativas distorcidas e anular as distinções entre o verdadeiro e o falso, misturando dados e opiniões" (132). Daí que na encíclica se proponha uma “higiene da atenção”, insistindo na necessidade de recuperar silêncio, profundidade e interioridade por entre o excesso de estímulos digitais, afirmando-se: “A rapidez e a facilidade com que se obtém uma resposta ou uma síntese correm o risco de extinguir o desejo de colocar perguntas” (140).


 

2. Um dos impactos dessa transformação é na democracia: "A busca da verdade é um elemento essencial para a democracia, que é, ela própria, um instrumento de participação no bem comum. Quando a questão sobre o verdadeiro perde interesse e se instaura um pragmatismo que se dá por contente com o que parece útil ou eficaz, a vida democrática enfraquece"(134). Acresce que "o desinteresse pela verdade faz deslizar, lenta mas inexoravelmente, para o totalitarismo, segundo o qual o súbdito ideal – citando a filósofa Hannah Arendt – não é tanto aquele ideologicamente convencido, mas “aquele para quem já não existe a diferença entre o facto e a ficção (…) nem entre o verdadeiro e o falso" (134). Daí a preocupação: "quem detém o controlo das plataformas digitais e dos meios de comunicação possui uma enorme capacidade de influenciar o imaginário colectivo e de apresentar como desejável uma determinada visão da realidade" (134).

Perante isto, Leão XIV propõe “uma ecologia da comunicação”, que "significa estabelecer normas que tornem mais transparentes as lógicas de selecção e amplificação dos conteúdos, e que protejam os dados pessoais", o que implica ainda "o reforço dos organismos intermédios, um jornalismo sério e espaços de debate onde prevaleçam a argumentação e a averiguação, em vez da reacção impulsiva" (137) – veios impulsores da democracia.


 

3. A educação é também um campo a desbravar. Ora, "os processos educativos requerem um tempo de maturação, de confronto com a realidade que vai além das aparências", sendo, portanto, "um caminho de paciência" (140). Citando Platão, o Papa salienta que "as coisas mais profundas e importantes só se aprendem depois de muito tempo e esforço, no empenho em debater com os outros para “friccionar”, como numa pederneira, os conceitos e as experiências, até saltar em nós a centelha da compreensão" (140). Para tal, é referida "a literatura psicológica e psiquiátrica", que mostra, "com crescente insistência, como uma exposição precoce e não supervisionada a dispositivos digitais e redes sociais pode afectar negativamente o sono, a atenção, a regulação emocional e as relações, sobretudo nas idades mais vulneráveis, com consequências por vezes dramática" (141). Os n.ºs 139-141 tratam da relação entre crianças, adolescentes e o ambiente digital.

Daí que, "se não estivermos atentos, pode formar-se um sistema educativo desprovido de amor à verdade, no qual o fluxo incessante de informações substitui o exercício de investigação, reflexão e discernimento" (146). Li algures que, nos Estados Unidos já surgem teses académicas feitas pela IA em minutos. Estamos ante um momentoso imperativo: "É necessário promover uma verdadeira higiene da atenção: ritmos que prevejam silêncio, estudo aprofundado, leitura, debate ponderado. Sem estes elementos, a liberdade interior pode ficar comprometida" (146).


 

4. O impacto sobre o trabalho humano, perante a automação, é também temeroso. E se é verdade que, neste campo, a IA trará grandes melhorias para todos, poderão também "as “novas formas” de trabalhar não serem necessariamente melhores, porque enquanto a IA promete impulsionar a produtividade encarregando-se das tarefas ordinárias, os trabalhadores são frequentemente obrigados a adaptar-se à velocidade e às exigências das máquinas, em vez de estas serem concebidas para ajudar quem trabalha"(150).

Outrossim, Leão XIV alerta que o afã por eficiência económica não pode transformar pessoas em elementos substituíveis de sistemas produtivos nem levar ao descarte de trabalhadores. "O princípio geral deve continuar a ser a protecção dos postos de trabalho e do papel insubstituível da pessoa. O objectivo de maiores lucros não pode justificar escolhas que sacrifiquem sistematicamente o emprego, já que a pessoa humana é um fim e não um meio" (152), aludindo depois a novas formas de exploração ligadas à economia digital, incluindo condições degradantes de trabalho na cadeia tecnológica. Subsiste so princípio: "O trabalho continua a ser uma dimensão fundamental da experiência humana: não é só um meio de subsistência, mas um lugar de expressão, de relações e um contributo para a comunidade" (154).

Prosseguiremos com o tema “Uma economia que valorize a dignidade” (nº 157 ss.)


 

O autor não escreve segundo o denominado “acordo ortográfico”


 

Acílio Estanqueiro Rocha

Acílio Estanqueiro Rocha

21 junho 2026