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Entre o futebol e a paz

Portugal acaba de entrar no Mundial e, como sempre acontece nestas ocasiões, o país parece ganhar uma segunda respiração. Há uma alegria antiga que regressa: a conversa no café, a bandeira à janela, a camisola vestida antes da hora, a esperança de que desta vez possa ser diferente. Mesmo quem diz que já não liga muito ao futebol acaba por perguntar a que horas joga a Seleção. Durante noventa minutos, somos menos dispersos, menos zangados, talvez até menos cínicos.

Mas este Mundial começa num tempo em que o mundo não cabe dentro de um estádio. Enquanto Portugal, depois da estreia com a República Democrática do Congo, olha para os jogos com o Uzbequistão e a Colômbia, outra partida, sem relvado e sem aplausos, joga-se no tabuleiro da geopolítica. O acordo preliminar entre os Estados Unidos e o Irão, anunciado com a promessa de travar uma escalada militar e reabrir o Estreito de Ormuz, lembra-nos que há resultados muito mais decisivos do que os que aparecem no marcador.

A bola tem esse poder curioso: une, distrai, consola. Num país que tantas vezes se sente pequeno, o futebol oferece uma escala maior. No Mundial, Portugal não é periferia. É visto, respeitado, temido. A Seleção leva consigo uma ideia de competência, de talento e de possibilidade. Talvez por isso o futebol pese tanto na nossa autoestima coletiva. Quando Portugal entra em campo, não joga apenas uma equipa; joga uma certa vontade de sermos reconhecidos.

No entanto, há um risco nesta festa: confundirmos pausa com esquecimento. O mundo continua a ferver enquanto se cantam hinos. O acordo EUA-Irão, mesmo que seja uma boa notícia, nasce de uma fragilidade imensa. Um cessar-fogo não é paz; é apenas a interrupção do abismo. A reabertura de uma rota marítima não apaga os mortos, não desfaz o medo, não resolve décadas de desconfiança. A diplomacia é celebrada quando evita o pior, mas raramente nos perguntamos porque deixámos o pior chegar tão perto.

Também aqui o futebol pode ensinar alguma coisa. Num jogo, por mais intensa que seja a rivalidade, há regras, árbitros, linhas, tempo contado, sanções para quem ultrapassa limites. Na política internacional, pelo contrário, os grandes atores parecem demasiadas vezes querer jogar sem campo marcado. E quando isso acontece, quem paga raramente são os que dão as ordens. São os civis, as famílias, os países dependentes da energia, os jovens que herdam crises que não começaram.

Portugal sabe bem o que significa viver entre a paixão e a prudência. Dependemos do mundo: da energia que chega, das exportações que vendemos, dos emigrantes que partiram, dos turistas que entram, das decisões tomadas longe de Braga, de Lisboa ou do Porto. Um conflito no Médio Oriente não é uma notícia distante. Pode chegar-nos pelo preço dos combustíveis, pela inflação e pela instabilidade.

A presença de Portugal no Mundial e o acordo entre Washington e Teerão pertencem a mundos diferentes, mas dizem algo sobre a mesma época. Vivemos num planeta hiperligado, onde um jogo nos chega em direto e uma guerra também. A distância encolheu. O sofrimento dos outros já não está escondido por semanas de silêncio; aparece-nos no telemóvel, entre uma análise tática e uma promoção de supermercado. A pergunta é se essa proximidade nos torna mais humanos ou apenas mais cansados.

Podemos ver o Mundial como fuga, e às vezes todos precisamos de uma fuga. Mas também podemos vê-lo como contraste. No relvado, a competição termina com abraços, trocas de camisola, respeito pelo adversário. No mundo real, ainda há líderes que confundem força com destruição e vitória com humilhação. A civilização mede-se pela capacidade de transformar conflito em regra, rivalidade em respeito, força em contenção.

Quando Portugal entrar em campo, faremos bem em celebrar. Que se encham os cafés, que se discutam os onzes, que se sofra com cada lance. Mas faremos ainda melhor se, depois do apito final, não desligarmos por completo. O mesmo mundo que nos oferece a beleza do Mundial exige de nós atenção, memória e responsabilidade.

A bola pode rolar e a paz pode tentar nascer ao mesmo tempo. Uma não anula a outra. Talvez seja essa a lição destes dias: precisamos de alegria para não endurecer, mas precisamos de consciência para não adormecer. Portugal vai jogar o seu Mundial. O mundo, esse, continuará a disputar uma partida muito mais perigosa. E nessa, ao contrário do futebol, não há prolongamento que devolva as vidas perdidas.

Carlos Vilas Boas

Carlos Vilas Boas

18 junho 2026