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Não é preciso mudar de margem

As margens delimitam um espaço, uma posição, um comportamento. Perante um qualquer problema, mais ou menos grave, a solução pode não estar em mudar de margem, mas dirigir-se a alguma. Quando a tempestade se levanta o que importa é salvar os que estão no barco enquanto é tempo. Quem enfrenta uma tormenta e tem poder de decisão não deve ficar inactivo. Não adianta questionar se o furacão estava previsto ou não, o que levou a que se formasse, que estragos vai eventualmente fazer à embarcação. Isto vale para um pescador, um qualquer de nós que se aventure com a família numa experiência de lazer no rio ou no mar, mas também para quem frequenta os corredores duma organização ou do poder político. A solução deve passar pelo todo colectivo e não por salvar este ou aquele. Fazê-lo egoisticamente ou de forma calculista pode prejudicar o todo, o que não invalida, num caso extremo, de se dar prioridade aos mais frágeis.


 

Nos navios de cruzeiro, uma das primeiras coisas que o cruzeirista é obrigado a fazer é ter presente várias orientações sobre segurança em caso de emergência. Os responsáveis repetem, mais do que uma vez, o aviso de que os hóspedes acabados de chegar devem acompanhar uma sessão de simulação e conhecer o ponto de encontro para o caso de haver uma catástrofe. A tripulação não fica isenta do procedimento e até o repete com uma frequência maior. Um bom comandante é o primeiro responsável e não se desleixa na exigência do que deve impor. Afinal, ele tem de velar pelos milhares de passageiros e tripulantes, uma função crítica do comando duma verdadeira cidade ambulante sobre água. E tratando-se dos que cruzam os mares, têm sempre as margens mais ou menos longe – em alto mar, acabam por não se verem a olho nu –, pelo que as exigências de acompanhamento e controlo de tudo o que se passa dentro da embarcação é ainda maior.


 

Um pouco parecido é o que se passa no comando de um país. E apesar das actividades se passarem em terra firme, não diminui a responsabilidade de quem quer que seja: dos cidadãos (os cruzeiristas, no caso dos navios), dos funcionários públicos e responsáveis políticos em geral (os tripulantes, à semelhança da estrutura humana do que designei de cidades ambulantes) e dos que estão ao leme do país. A paz, a tranquilidade e a segurança no sentido lato depende de todos. Se houver prevaricadores ou quem ponha em causa a credibilidade das diferentes áreas operacionais e executivas ou do sistema político, alguém tem de tomar decisões. Não pode haver dúvidas sobre isso e num país organizado está perfeitamente identificada a estrutura de comando. É incontornável que a saúde de um regime político tem de ser preservada a todo o custo. Se tal não for acautelado, corre-se o risco de desmoronamento. Não é despiciendo que se deixe de controlar e que se reprima um cidadão que pega fogo a uma floresta ou que se deixe que um alto responsável sob escrutínio, em virtude de desconformidades fundamentadas, permaneça no cargo por tempo indeterminado, enquanto deixa no ar a possibilidade de que a impunidade de alguns é real e aceite por quem tem a obrigação de preservar a boa imagem do governo do país. O pior que pode acontecer num regime democrático é que os cidadãos fiquem com a convicção de que os seus representantes não são dignos ou são incumpridores. Se ao nível do cidadão comum a lei é cumprida, com maioria de razão deve acontecer ao nível de quem formula as regras que regem a sociedade. Ainda que em regimes autocráticos se costume constatar que há dois pesos e duas medidas no cumprimento da lei, num regime democrático isso é, de todo, inadmissível. Para ultrapassar as dificuldades, não é preciso mudar de margem, apenas desviar-se da tempestade para que o barco não se afunde, deixando no porto mais próximo o hóspede mal comportado ou o tripulante incumpridor.

Luís Martins

Luís Martins

11 agosto 2026