Os meios de comunicação social e dentro destes os jornais têm o dever de escrutinar o exercício do poder a nível nacional, regional (Açores e Madeira) e local. Jornais que assim não procedem não prestam. Não honram o jornalismo. Não contribuem para o fortalecimento da democracia.
Em Portugal, podemos dizer que há, em regra, uma grande diferença entre o escrutínio do poder feito a nível nacional e o feito a nível local. A nível local esse escrutínio deixa muito a desejar. Os jornais, em regra, tem poucos meios humanos e financeiros e estão quase sempre dependentes do apoio do poder local. É difícil fazer o escrutínio deste poder, apesar de tão necessário.
Bastante diferente é o escrutínio feito a nível nacional e basta ter presente os jornais de âmbito nacional que todos conhecemos. Exemplo disso, mero exemplo de muitos outros, é o artigo que passamos a resumir que foi recentemente publicado. O jornal digital Observador do dia 9 de Junho de 2026 noticiava que o Governo de Luís Montenegro tinha nomeado “ 26 novos presidentes para conselhos de administração de Unidades Locais de Saúde (ULS) em pouco mais de dois anos de governação”. E acrescentava :”(E)stão em causa mudanças em dois terços dos conselhos de administração das 39 ULS do país – as unidades administrativas resultantes da reforma do SNS que concentrou a gestão de cuidados de saúde primários e hospitalares. Entre os presidentes das ULS nomeados, existem 18 com ligações conhecidas a PSD e CDS”.
O jornalista Miguel Pereira Santos (MPS) anotou ainda: “Isto significa que 69% dos novos presidentes das ULS são próximos dos partidos do Governo, sendo que a esmagadora maioria tem cartão de militante. Entre eles, encontram-se antigos deputados na Assembleia da República, presidentes da Câmara que tiveram de interromper mandatos, candidatos autárquicos que foram nomeados semanas depois de falharem a eleição ou presidentes de estruturas locais do PSD”. E o jornalista foi mais longe e escrutinou cada uma destas 18 nomeações.
Lembrava entretanto, o autor do texto que a CReSAP (Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública) tinha-se pronunciado favoravelmente sobre todas as 18 nomeações. Sobre estas pronunciou-se ao longo desse dia Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, que voltou a levantar a questão das nomeações políticas para as ULS. O mesmo presidente advertiu, em declarações ao Observador, que esta é uma das principais mudanças estruturais de que o SNS necessita atualmente. “Sabemos que se não despolitizarmos as nomeações para muitas das nossas ULS e garantirmos que as pessoas são nomeadas em função da sua experiência, do seu currículo, até das suas provas dadas, vamos ter sempre problemas na gestão.”
Claro que esta notícia do dia 9 de Junho já está esquecida na voragem de informação que vivemos e cultivamos. No entanto, este assunto deveria estar presente e merecer comentários porque é a manifestação de algo de grave no sistema político vigente.
Como escreveu o jornalista, O PSD quando estava na oposição denunciava a "politização inadmissível" da Saúde. Agora, 69% dos presidentes de ULS nomeados pelo Governo são próximos do PSD. Muitas vezes, substituem militantes do PS.
O PS e o PSD são os principais pilares do regime democrático que celebra agora 50 anos de vida. E se estes dois partidos não compreenderem devidamente que não são donos e distribuidores do poder pelos seus apaniguados, mas antes servidores do bem público, nomeando para os cargos que importa preencher as pessoas mais competentes independentemente da sua filiação ou simpatia partidária, estão a contribuir para o fim da democracia e a abrir caminho para regimes que detestamos e estão aí diante dos nossos olhos por todo o mundo, perseguindo a liberdade de informação e de opinião.