Há um rumor antigo que percorre povoações sempre que um padre muda de paróquias. É um rumor feito de palavras que cruzam as ruas e as praças, de versões que crescem, de suspeitas que se levantam e de razões que se inventam. É o rumor dos corações que sofrem porque amam ou o dos interesses que se sentem ameaçados. Nem é por acaso que, nestes casos, alguns que frequentam a Igreja ameaçam deixar de o fazer e outros que, alheados da Igreja, se manifestam, de forma quase sempre imprópria!
De facto, na hora de mudar, há lágrimas sinceras, mas também há murmúrios: uns exigem saber os motivos, outros procuram culpados, alguns julgam conhecer razões que nunca existiram. Erguem-se perguntas, receios, saudades antecipadas e expectativas tímidas. Uma passagem, ainda que apressada, pelas redes sociais digitais, transformadas em lavadouros públicos do nosso tempo, mostra que os comentários e as conversas se multiplicam como folhas levadas pelo vento, e nem sempre o vento leva verdade. Mas Deus escreve quase sempre em páginas que ainda não conseguimos ler.
As comunidades habituaram-se ao timbre daquela voz, ao ritmo daqueles passos, àquele modo de pronunciar o Evangelho e de partir o pão da Palavra ou até àquela forma única de erguer o cálice. Sem darem conta, fazem do pastor um pedaço da sua própria história, chegando até a confundir a tenda com o peregrino ou a embarcação com o marinheiro. E, quando chega o dia da despedida, parece que alguém deslocou uma pedra do alicerce da casa. Por haver uma geografia de afetos que se desloca, a mudança não se resolve só por decreto.
Todos os anos se repete este cenário, na sempre exigente e difícil tarefa de prover de pastor cada parcela do único rebanho de Cristo. Por mais que se alerte e forme a comunidade e dela o pastor viva suficientemente desprendido, as pessoas não estão preparadas para as mudanças, pelo que as reações talvez sugiram que estes assuntos sejam preparados com antecedência, num diálogo franco e sincero entre os agentes pastorais envolvidos, num posicionamento que será tanto mais sinodal e pedagógico quanto mais for transparente.
Mais ou menos pensado, tratado com tempo ou de forma mais apressada, o processo, a que alguém jocosamente designou de “engenharia eclesiástica”, não é fácil e, nalguns casos, afigura-se mesmo muito difícil. Aliás, a história testemunha que, quando se pretende evitar os problemas a montante, eles levantam-se inevitavelmente a jusante.
Também o padre sofre com a mudança. Com o coração pendurado no campanário, não leva apenas livros e imagens ou paramentos. Leva rostos, confidências, funerais, batismos e casamentos, idosos cuja mão segurou no último suspiro e crianças que viu crescer na vida e na fé. Leva algo de si espalhado por caminhos de procissão, casas visitadas, mesas partilhadas e vidas orientadas. E nenhuma carrinha de mudanças consegue transportar tudo isso!
Mas parte, à semelhança de Abraão, de Moisés ou de Elias. E parte porque o Evangelho nunca permitiu aos discípulos construir moradas definitivas: Jesus passou de aldeia em aldeia, enviou os Doze sem bolsa nem sandálias de reserva, Pedro deixou as redes, Mateus o posto de cobrança e Paulo nunca pertenceu a uma única cidade. O Evangelho nunca se escreveu com pessoas imóveis e a Igreja aprendeu, desde cedo, que o Reino cresce mais por sementes lançadas à terra do que por raízes a ela acomodadas.
A mudança é uma pequena Páscoa. Há sempre algo que morre: hábitos, rotinas, afetos instalados, modos de fazer. Mas há também algo que ressuscita: o povo descobre novos dons, o sacerdote reencontra energias adormecidas. As comunidades aprendem que a sua unidade não depende de um homem, mas de Cristo, o único Pastor que nunca abandona o rebanho.
O novo padre não deveria chegar para apagar o anterior, nem o anterior deveria partir como um capítulo que se rasga do livro. Ambos pertencem à mesma história de salvação: um semeou, outro regará; um consolou, outro despertará; um abriu caminhos, outro alargará horizontes. Na pluralidade de temperamentos e formas de ser, Deus continua a fazer crescer.
Talvez seja precisamente esta a lição mais difícil: compreender que o pastor não é propriedade do rebanho, mas do Pastor que o envia; as comunidades não são donas dos seus padres e estes também o não são das suas comunidades. São antes companheiros de viagem, chamados a caminhar juntos, até que a voz do Senhor indique outra margem.
As despedidas doem porque houve amor. E isso é belo. Mas a fé ensina-nos que o amor verdadeiro não aprisiona, antes abençoa, agradece e envia. Por isso, quando um padre muda de paróquia, não apenas muda de residência ou de missão. É uma oportunidade para todos reaprenderem a confiar, menos nas seguranças humanas e mais na surpreendente fidelidade de Deus, que continua a escrever a sua história com mãos, vozes e corações diferentes.
A partida de um padre não fecha a porta da saudade, mas abre a janela da esperança. É tempo de agradecer o que se recebeu, de acolher quem chega e de acreditar que o Espírito Santo conhece melhor do que nós os caminhos por onde faz passar os seus pastores. No fim, permanece a certeza do que nenhuma transferência pode revogar: o pastor muda de rebanho, mas o Bom Pastor permanece sempre no meio do seu povo, a acompanhá-lo na estrada de Emaús e a conduzir cada comunidade pelos caminhos inesperados da graça.