Por estes dias vai falar-se de futebol, sobretudo, de futebol. Vai dizer-se que Portugal é um dos candidatos ao troféu ou que talvez não seja, por isto e aquilo; que o treinador podia ter feito uma ou outra escolha diferente da que fez; que o Ronaldo continua a ser o melhor do mundo ou que já devia ter-se reformado; e tantas outras coisas relacionadas com o futebol. O campeonato vai estar na ordem do dia e muitas pessoas vão dar-lhe uma atenção especial. A vida decorrerá como habitualmente, mas uma parte dos alinhamentos dos noticiários televisivos e radiofónicos ocuparão seguramente as disputas desportivas que vão decorrer nos Estados Unidos da América, no Canadá e no México. Nos transportes públicos, nos estabelecimentos de restauração e até no trabalho, as conversas vão versar com maior frequência e desenvolvimento o desporto-rei. Se calhar, alguma decisão, no domínio público e no domínio privado, deixará de ser tomada num dia para que os decisores assistam à partida de futebol que passará em directo num ou noutro canal. A expectativa é muita para amanhã, dia em que a nossa selecção entrará em acção com a da República Democrática do Congo. Será, seguramente, uma disputa equilibrada, com meios idênticos em ambos os lados. À hora do directo, uma grande parte de nós estará o melhor posicionado possível, em casa, no café, numa qualquer praça do país onde haja um ecrã gigante e se possa conviver e trocar impressões sobre os intervenientes, as tácticas e as jogadas enquanto decorre o jogo. Damos muita atenção ao que gostamos e deixamos adiar outras questões para o dia seguinte ou para quando houver melhor oportunidade. Talvez os mais diligentes respondam a um e-mail que possa chegar perto da hora da transmissão, mas outras deixá-lo-ão para depois, que o pensamento não consegue concentrar-se já a não ser no desafio que consta do calendário. Há que pegar no automóvel, enfrentar a hora de ponta, apanhar o autocarro ou o metro até ao local escolhido para acompanhar tudo sobre o encontro. As preocupações hão-de repetir-se nas datas que coincidam com novas partidas.
A guerra deixará de ocupar tanto o tempo de antena, aqui e lá fora, ainda que no terreno nada se tenha alterado para melhor ou até tenha havido um agravamento da situação. Há acontecimentos que condicionam as nossas decisões particulares e as decisões das autoridades políticas dos diferentes países. Talvez o acordo Irão-Estados Unidos da América esteja dependente das cerimónias públicas do funeral do dirigente supremo iraniano morto na guerra que decorre ou de outras questões; talvez o presidente Trump gostasse de acompanhar um jogo de futebol da selecção americana com o assunto do acordo com o Irão resolvido. Mas, nada disso resolve os problemas na sua base. Enquanto se não desejar verdadeiramente a paz, e para isso é preciso, antes de mais, baixar as armas, a guerra pode esfriar por algum tempo, no sentido de que pode estar menos presente nas notícias, mas continuará a permanecer nos territórios onde agora lavra e dizima milhares de vidas humanas, tanto nas denominadas linhas da frente como nas cidades e aldeias onde cidadãos inocentes são apanhados de surpresa por engenhos inventados para destruir e matar.
Os senhores da guerra bem podiam iniciar um período de tréguas e aprender um pouco com o que se vai passar nos diversos campos de futebol e, quem sabe, fazer a paz. No futebol, há vencedores e vencidos, mas as armas de uns e outros são o jeito, o gosto dos intervenientes pela bola, a táctica e a organização, e ainda que possa haver choques, rasteiras e outras faltas mais ou menos duras, não eliminam os adversários. Além do mais, e ao contrário da guerra, as partidas de futebol são uma festa onde, mesmo perdendo, os adversários se cumprimentam e respeitam.