twitter

Para Deus e para o essencial não pode haver pressa (2)

Os tempos que vivemos exigem, não uma nova reforma da Liturgia, pois que a proposta pelo Vaticano II deu o impulso necessário, mas uma tomada de consciência de uma nova inculturação do Evangelho nesta sociedade pós-moderna, em que a liturgia desempenha um papel fundamental.

As coisas mudaram muito desde o Concílio. Os avanços científicos, tecnológicos, culturais e sociais aceleraram-se ao ponto de podermos falar, com o papa Francisco, de «uma mudança de época». Chauvet afirma que os «últimos 80 anos influíram mais nesta mudança que os 20 séculos anteriores». (p.16) O já mencionada papa foi muito consciente dessa mudança e por isso pôs em marcha o processo da sinodalidade, a reforma da Cúria, a luta contra o clericalismo, a atitude de abertura em matéria de bioética, etc. Também a liturgia precisa de um processo de renovação. A geração mais jovem sente-se perdida, imersa neste mundo hipersecularizado. Enquanto nos últimos 20 séculos o mundo «arquirural e arquicatólico em que se vivia tinha poucas diferenças em relação ao passado, as gerações destes últimos 40-50 anos , imersos num mundo hipersecularizado , sentem que não têm referências suficientes nem vivências religiosas que os ajudem a enfrentar as dificuldades, também na captação da beleza do Evangelho e da nova vida que dele promana para que, de verdade, se deixem por ele iluminar, vivendo-o na liturgia.

Há um número significativo de sacerdotes e católicos jovens cujo selo de identidade é um fechamento, um olhar para o passado, renegando as conquistas do Vaticano II, aduzindo que «o sagrado é necessário». Só que o sagrado não coincide necessariamente com o religioso. Aliás «a complacência mais ou menos meticulosa dos ritos e o hieratismo dos gestos e atitudes pode converter-se, de forma, em grande medida inconsciente, no objetivo procurado na liturgia, sob a aparência de espiritualidade». (pp 21-22)

A sacralidade é imprescindível, porque pertence ao corpo, «ao ser corpo» individual e coletivo, da humanidade de cada um. Como componente desse «corpo», deve assumir-se positivamente, na lógica da própria incarnação de Deus. As suas manifestações, concretamente na liturgia, podem ser a expressão de uma bela relação pessoal e comunitária com o Deus do Evangelho. Para Ele: respeito, honra e homenagem; para o homem pecador: humildade e arrependimento. Por isso, quer na beleza arquitetónica de uma igreja românica, gótica ou moderna, quer na luz colorida dos vitrais, na decoração dos quadros ou das estátuas, na música e nos cânticos, nos arranjos florais e inclusive em todo o cerimonial programado nos rituais, deve poder desprender-se uma sacralidade.

A sacralidade necessita de ser evangelizada constantemente, porque a sacralidade, na liturgia, deve estar ao serviço da santificação daquilo que, nas nossas línguas ocidentais, chamamos profano, e não da sua sacralização. É a própria vida aquilo que o cristão está chamado a oferecer como sacrifício espiritual, como culto capaz de agradar a Deus, particularmente dentro desta vida tão profana: a preocupação muito concreta pelos outros.

A fé cristã oferece-nos uma inversão e não a substituição. A sacralidade é necessária para atuar em benefício daquilo que sintetiza toda a Escritura: o duplo amor a Deus e ao próximo; ou melhor ainda: o amor que se manifesta no amor ao próximo: «O que ama o próximo cumpriu a Lei» (Rom 13, 8), afirma Paulo.

No que diz respeito à Liturgia, mesmo nesta contextualização pós-moderna, ela não exige necessariamente um aumento de sacralidade, embora tenha sido esta a tendência de muitos cristãos, desde há 20 anos. O essencial é que não neutralize o «ardor» da Palavra de Deus e dos seus desafios éticos. Tal sacralidade deve estar ao serviço da santificação da vida quotidiana, pessoal, familiar, profissional e política. O verdadeiro desafio é honrar a sacralidade de uma forma verdadeiramente cristã, despojando-a, assim, da sua capacidade de dominação. (pp 25 a 28).

Carlos Vaz

Carlos Vaz

27 maio 2026