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Alvorada e ocaso

Todos os dias, o sol entra em Portugal pelo Nordeste, iluminando as cristas quartzíticas do Douro Internacional e o planalto mirandês. Locais magníficos para o receber não faltam, como o miradouro da Penha das Torres, no ponto mais oriental do País, onde a claridade emerge sobre as arribas castelhanas; ou o castelo de Mogadouro, com uma luz seca e nítida sobre uma paisagem quase sem obstáculos.

Minutos depois, o litoral desperta. Nas praias atlânticas, a luz chega já transformada, coada ao projetar-se sobre antigas plataformas costeiras e relevos litorais, ganhando reflexos móveis e a difusão própria do ar húmido do oceano.

É em Montedor, Carreço, que o ocaso ocorre mais tarde no continente, durante os dias mais longos do ano — sobre o mar aberto, entre rocha, farol e vento, o sol desaparece num ritual horizontal, limpo, sereno e quase abstrato.


 

Luz e território

De Este para Oeste, mas também de Norte para Sul — da granítica Serra da Peneda às pedras parideiras da Freita, do xistoso Montesinho aos castanheiros da Lapa — a luz revela texturas e temperaturas, à medida da heterogeneidade deste Norte. Uma pluralidade que escritores, pintores e fotógrafos têm sabido transformar em linguagem.

O pôr do sol no Norte não é apenas o fim do dia. É um diálogo entre a terra e o tempo: no Atlântico, dissolve-se na água rumo ao infinito; no Douro, incendeia o xisto e a memória; e nas terras altas, recolhe-se sob os matizes da paisagem, em silêncio. Cada um, à sua maneira, revela a mesma verdade — a de um território onde a luz nunca parte sem levar a marca da terra, do mar e da gente.

Também o nascer do sol não é apenas espetáculo: é chamamento. Surge devagar, não para deslumbrar, mas para recomeçar. A luz não só acaricia, também convoca cada vida a cumprir o seu dia.

Esta heterogeneidade tem sido estudada pela geografia portuguesa. Orlando Ribeiro caracterizou-a articulando paisagem e história, do Minho húmido e atlântico ao interior transmontano mais continental. Teresa Sá Marques e outros autores contemporâneos evidenciaram o policentrismo estrutural de uma complexa rede de sistemas urbanos, urbano-rurais e económicos. Álvaro Domingues recupera o conceito de conurbação de Nuno Portas para descrever, com acutilância, territórios híbridos de urbanização difusa — fragmentados na forma, mas funcionalmente interligados — de que o Ave e o Tâmega e Sousa são paradigmas.

Do agreste do Gerês às vinhas disciplinadas do Douro, dos horizontes abertos de Trás-os-Montes à frente marítima do Porto, a natureza, a história e a ação humana moldam uma das geografias mais intensas da Europa.


 

Uma nova leitura do território

Nesta surpreendente coerência na diversidade, os desafios do desenvolvimento e da coesão territorial impõem abordagens multidimensionais. Coesão não significa homogeneidade: significa garantir que nenhum lugar fica para trás e que a variedade de condições — de densidade, de recursos, de história — é valorizada como ativo. 

No plano das políticas públicas, o PROT-Norte (Programa Regional de Ordenamento do Território do Norte), coordenado por Célia Ramos, é o referencial de enquadramento estratégico, simultaneamente pedagógico e doutrinário. Parte de uma leitura integrada do território e articula desenvolvimento económico, coesão social, conhecimento e valorização dos recursos naturais e culturais. Reconhece uma Região patrimonialmente rica, de forte base industrial exportadora e inovadora, mas também confrontada com reptos demográficos, de coesão e de transição climática e digital.

Organiza essa leitura em cinco sistemas — natural, social, económico, de conectividade e urbano — assentes em grandes conjuntos territoriais: um Noroeste denso, fortemente urbanizado e industrial; um espaço intermédio de excelência ambiental, das serras da Peneda-Gerês e do Barroso até ao Douro; e um Nordeste mais rural e demograficamente rarefeito, para lá do marco histórico-geográfico do Marão-Alvão.

A expressão territorial da Região é reforçada por fatores distintivos estruturantes — Demografia, Água, Energia e Neutralidade Carbónica — que se entrecruzam e distendem. Este movimento de sístole e diástole da pulsação do Norte ora evidencia a complexidade dos sistemas naturais e do uso do solo, ora equilibra os interesses públicos entre energia, solicitações de uso e ocupação do território. Requer o conciliar de estratégias e objetivos, reforçando o caráter orientador, mas não normativo, do PROT-Norte nas diferentes escalas de intervenção na Região que deve influenciar.

Esta visão ultrapassa a tradicional dicotomia litoral/interior: todos os territórios contam, a urbanidade afirma-se na sua relação com o industrial e o rural — a coesão deixa de ser meramente ponderada em função do edificado. Assim, o Modelo Territorial do PROT-Norte traduz uma territorialização adaptativa de políticas públicas: consolida e encadeia os territórios; gera agregação e continuidade; e destaca a excecionalidade das camadas do compósito que é o Norte.

O fator da neutralidade carbónica rompe com as disciplinas e abordagens tradicionais de caracterização sistémica. Concentra e revela os indicadores capazes de orientar novos caminhos: na economia territorial, na dinamização dos assentamentos e no bem-estar das populações. Assim, a síntese entre água, biodiversidade e carbono — o ABC do Norte — descodifica o ADN regional: gerando oportunidades em contextos de baixa densidade; apontando os eixos de ligação entre usos do solo e riqueza; determinando interdependências positivas; e promovendo o equilíbrio entre fornecedores e consumidores de recursos — alcançando, por fim, a efetiva coesão territorial regional.


 

Como sublinha Rodríguez-Pose, o desenvolvimento não depende apenas de eficiência económica agregada, mas da capacidade de os territórios serem atrativos para quem neles vive e trabalha — valorizando recursos locais, reforçando instituições de proximidade e criando oportunidades enraizadas no lugar.

Esta lógica exige políticas diferenciadas: o que faz sentido para o Noroeste metropolitano não serve, necessariamente, o Nordeste rural. E é precisamente aí que reside o paradoxo produtivo desta Região: a sua tenacidade não está na uniformidade, mas na capacidade de articular, numa mesma visão estratégica, realidades tão distintas como a orla costeira, o Ave industrial, as terras de domínio florestal, o Alto Douro Vinhateiro ou a raia transmontana. A coesão territorial não é uma meta administrativa — é uma condição de identidade.

Ser daqui é, talvez, isso: habitar um território onde a diversidade não fragmenta — compõe. Onde a luz, na alvorada e no ocaso, mais do que paisagem — revela pertença.

António M. Cunha

António M. Cunha

27 maio 2026