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Infraestrutura essencial do desporto

Podemos afirmar, com alguma margem de segurança, que quase todos os 11 684 clubes desportivos portugueses enfrentam hoje um desafio estrutural que já não pode ser ignorado. A burocracia tem vindo a aumentar, os processos continuam lentos e excessivamente dependentes de dirigentes com disponibilidade cada vez mais limitada, enquanto os praticantes e as famílias exigem respostas rápidas, simples e digitais. Neste contexto, a transformação tecnológica deixou de ser uma modernização opcional para passar a constituir uma verdadeira condição de sobrevivência.

A tecnologia está hoje muito mais acessível e pode permitir ganhos muito significativos de tempo, eficiência e organização, sobretudo num sistema associativo português que continua excessivamente dependente de modelos legislativos e administrativos antigos, pouco eficientes e incapazes de responder às exigências atuais. Inscrições, pagamentos, comunicação com atletas, treinadores e famílias, gestão de equipas, reservas de instalações e controlo administrativo podem hoje ser simplificados através de plataformas intuitivas e acessíveis. Mas esta mudança exige dirigentes atentos, preparados para influenciar decisões políticas e institucionais e, sobretudo, abertos à mudança permanente. Os clubes precisam de maior apoio tecnológico e de recursos humanos capacitados para operar estes sistemas, de forma a conseguirem modernizar-se e garantir a sua sustentabilidade futura.

As federações desportivas têm aqui igualmente uma enorme responsabilidade. Devem assumir-se como motores de desenvolvimento e exemplos para todo o sistema, modernizando os seus próprios serviços, simplificando processos e apoiando os clubes na evolução digital. Não basta exigir mais informação, mais plataformas ou mais procedimentos administrativos sem criar, simultaneamente, condições de apoio, formação e integração tecnológica. Estas estruturas devem estar atentas às novas tendências, promover soluções comuns, apoiar técnica e financeiramente os seus associados e garantir serviços rápidos, eficientes e verdadeiramente úteis. Caso contrário, arriscam perder massa crítica, relevância institucional e, sobretudo, enfraquecer as próprias células-base do desenvolvimento desportivo, ou seja, os clubes.

Ao mesmo tempo, torna-se evidente a necessidade de profissionalizar mais estruturas. O voluntariado continuará a ser essencial, mas já não é suficiente. Os clubes e federações precisam de mais pessoas qualificadas, profissionalmente capacitadas e capazes de assegurar um funcionamento eficiente, planeamento estratégico e utilização inteligente dos dados. Também as instituições de ensino superior que formam gestores de desporto devem estar particularmente atentas a esta transformação. Os currículos necessitam de maior flexibilidade e atualização, integrando competências ligadas à gestão digital, plataformas tecnológicas, análise de dados, comunicação digital e experiência do utilizador.

Apoiar mais e melhor a digitalização do sistema desportivo, por parte do Estado e das estruturas federativas e suprafederativas, significa criar melhores mecanismos de acesso à informação, respostas mais rápidas, maior transparência e uma capacidade real de planeamento do desporto nacional. Significa também permitir que as decisões públicas deixem de assentar em perceções e passem a apoiar-se em dados concretos, atualizados e fiáveis, porque o futuro do desenvolvimento desportivo dependerá cada vez mais da capacidade das organizações oferecerem experiências simples, eficientes e modernas, num contexto em que a tecnologia deixou de ser uma ferramenta complementar para passar a constituir uma infraestrutura essencial do “ecossistema desportivo”.

Fernando Parente

Fernando Parente

22 maio 2026