As festas académicas são uma ocasião exuberante e esfuziante de os estudantes viverem uma das etapas mais alegres e garbosas da sua vida. De capas, segundo a tradição jesuítica iniciada na Sorbonne, conserva-se ainda hoje como um pregão da juventude académica, que mais própria de Coimbra, se estendeu a todas as universidades e politécnicos portugueses, com tunas e traje típico de estudantes privilegiados que obtiveram acesso ao ensino superior. Tudo bonito, romântico, embora menos belo nas “praxes” académicas, na recepção aos “caloiros”, onde tem havido muitos abusos…
Conheço as universidades de Lovaina, da Sorbonne e de Bona, onde fui também um pobre professor de Língua e Cultura Portuguesa. Assisti a algumas festas académicas: aberturas do ano lectivo, jornadas e farras académicas, mas em épocas baixas do ano, sem grandes algazarras, a não ser em Louvain-la-Neuve nas corridas de bicicletas, com alguns exageros do álcool, todavia sempre cordatas embora ruidosas, em que se punha à prova modelos de velocípedes de todos os tipos conforme a imaginação dos corredores. Uma garraiada esfuziante, sobretudo com técnicas e inovações, já a pensar nas energias alternativas… Muito diferente das nossas farras académicas, e fora da época de exames… Deveria ser tempo forte de provas e de grande aplicação aos estudos.
É saudável que os estudantes vivam os sonhos mais belos de ilusões e quimeras da sua juventude – talvez o melhor tempo da sua vida, mas nada de exageros –, nem pensem assim impor-se aos outros pelo excesso, num país que tudo tem feito para fazer subir culturalmente os seus cidadãos para, com o esforço dos contribuintes e dos seus pais, os alcandorar a um nível cultural e profissional mais elevado. Mas bastará o diploma?!...
Democratizar e estender universidades será o suficiente para a elevação e nível intelectual dos estudantes? Como permitir o acesso aos mais pobres, criar residências universitárias mais acessíveis ou abrir mais universidades para impedir serem deslocados do seus meios, será o suficiente? Não seria mais importante a qualidade do ensino, com professores bem preparados e formação internacional em línguas e noutros domínios da ciência, técnica, economia, teologia, etc. e mesmo filosofia? A dimensão intercultural é muito mais importante, como o conhecimento de outros meios universitários, abre outras perspectivas para um mundo global.
É pena também que algumas universidades reproduzem, em autofagia, os seus docentes, por vezes, bastante fechadas e com critérios discutíveis. Num mundo global é fundamental uma cosmovisão atenta ao desenvolvimento científico universal para dar novas orientações aos alunos. Para isso é necessário fomentar mais os bolseiros e doutoramentos no estrangeiro. Na Alemanha, as empresas selecionam os melhores universitários para fazerem especializações no Japão, Inglaterra, América, ou mesmo na China, no que têm de específico mais avançado. Estarão as nossas universidades a corresponder aos desafios do mundo actual, ou apenas a preparar “canudos” para os supermercados, com um salário mínimo nacional, ou a exportar os melhores para o estrangeiro?
Precisamos de mais ambição nas elites, e premiar o mérito dos mais dotados e competentes, deixando-se das apologias do “Portugal dos pequeninos”, canteiro ou canteirinho da Europa, mas sempre de mão estendida a subsídios, e complexos, não sei se de superioridade ou inferioridade.
Ao que fomos, ao que recebemos, deveríamos ter mais ambições e ser mais exigentes daqueles que nos governam. Como situar-nos hoje no panorama internacional, e como corresponder a tantos desafios? Estaremos no melhor caminho, embora promovendo a massa cinzenta de pobres?!...