Já reparou, caro leitor, na superioridade filosófica de um gato deitado ao sol? Falo do meu gato, branco com manchas castanhas, que parece sábio quando não faz absolutamente nada. Digo isto com a seriedade possível de quem observa, todos os dias, uma pequena criatura a habitar o mundo com uma tranquilidade que nós, humanos apressados, tantas vezes perdemos. Quando repousa, repousa mesmo. Não descansa a pensar nos e-mails, nas mensagens ou na reunião agendada. Está ali, sem pressa e sem alvoroço, como se não houvesse mais nada a fazer.
Confesso-vos que tenho inveja dos gatos. Não da ração, nem da mania de ocuparem o melhor lugar do sofá, mas da sua serenidade. Há no olhar de um gato uma espécie de desprezo tranquilo pelo excesso de importância que damos a tudo. Enquanto nós andamos presos ao trânsito, ao trabalho, às comparações e à ansiedade de imaginar desgraças que talvez nunca aconteçam, ele muda de posição, espreguiça-se e continua a existir.
Há nisto uma lição estoica, mesmo que o gato nada saiba de Epicteto. No seu Manual, o filósofo lembra-nos que há coisas que dependem de nós e outras que não dependem de nós. Não controlamos o tempo, a opinião dos outros, a doença, a morte, a economia, o humor do vizinho, nem sequer a vontade de um gato se sentar ao nosso colo. Podemos, no entanto, controlar em parte a forma como respondemos ao que nos acontece. O meu gato parece saber isto de forma instintiva, e isso, confesso, irrita-me um pouco.
O problema, caros leitores, é que nós complicamos tudo. Precisamos de livros, cursos, terapias, aplicações de meditação e frases motivacionais para aprender a abrandar, enquanto ao gato basta uma nesga de sol. Marco Aurélio escreveu nas suas Meditações que a vida de cada um é aquilo que os seus pensamentos fazem dela, e talvez esteja aqui uma das lições mais difíceis, que é escolher aquilo a que damos importância. Um prato vazio ou uma porta fechada justificam protesto, mas a opinião alheia, o drama social e a necessidade de agradar não merecem sequer um movimento de bigode. Nós, pelo contrário, damos demasiada importância ao olhar dos outros, queremos ser aprovados e elogiados, e parece que nada nos basta se ninguém reparar. O gato, esse pequeno aristocrata doméstico, não pede licença para ser o que é, nem perde tempo a perguntar se estamos de acordo.
Há também aqui uma lição aristotélica. Para Aristóteles, a felicidade, a eudaimonia, não era prazer passageiro, mas uma vida realizada de acordo com a natureza própria de cada ser. O gato não é virtuoso no sentido clássico, pois não o imaginamos a deliberar sobre a justiça ou a praticar a temperança diante de uma posta de peixe. Mas há nele uma fidelidade admirável à sua condição. O gato não tenta ser cão, não procura agradar a toda a gente, não finge entusiasmo quando quer silêncio, nem pede desculpa por precisar de sossego.
E nós, caros leitores, quantas vezes passamos a vida a tentar ser outra coisa qualquer? Basta alguém dizer “então, ontem não respondeste?” e lá vamos nós explicar que havia trabalho, que o dia foi complicado, que chegámos tarde, que estávamos cansados. Até para descansar parece que temos de pedir desculpa. Nesse aspeto, o gato parece saber mais do que nós, porque não se explica, apenas está.
Por isso, se me perguntarem por um bom livro para acompanhar esta reflexão, volto a Epicteto, o filósofo escravo, e ao seu Manual. É breve, direto e desconcertante. Não promete felicidade em sete passos, nem transforma o leitor num sábio de fim de semana. Apenas nos recorda que viver melhor começa por aceitar que nem tudo está nas nossas mãos.
No fim de contas, não precisamos de viver como gatos, porque isso seria impossível e, admitamos, pouco recomendável. Mas podemos aprender com eles a estar mais presentes, a escolher melhor as inquietações e a não dar importância ao que não merece tanta atenção.
No fundo, talvez o meu gato não seja apenas preguiçoso. Talvez seja um filósofo de bigodes.
- E nós, que corremos tanto para parecermos importantes, ainda sabemos estar sossegados?