É uma das frases de um recente texto do Secretariado Diocesano de Liturgia do Porto, inserido no jornal «Voz Portucalense», de 6 de maio. E sirvo-me dela para dar eco às XXXVII Jornadas Teológicas, promovidas pela Revista «Cenáculo», dos alunos do Seminário Conciliar de Braga, realizadas em 11 e 12 de maio corrente.
Na primeira noite, interveio Patrrick Prétot, beneditino, formador em Liturgia do Instituto Superior de Liturgia, de Paris, com o tema: «Desiderio Desideravi»: a formação litúrgica hoje. Para uma receção aprofundada da carta apostólica «Desiderio Desideravi». Na segunda noite, foi o padre jesuíta José Frazão a desenvolver o tema: «Fidelidade à Tradição ou apego a tradições? Diagnóstico e reflexão das Moções litúrgicas na Igreja».
Para situarmos a pertinência dos temas, socorro-me de algumas reflexões do já mencionado texto de «Voz Portucalense» a propósito do uso quase exclusivo da «Oração Eucarística II», mesmo aos domingos. Aí se diz: «A preferência não tem por base considerações teológicas ou espirituais. Tem uma justificação prática e prosaica, nada pastoral: a pressa. E, com ela, a perda do impulso espiritual da prece e a consequente rotina e inadvertência. E a subversão dos valores e prioridades. Veja-se a cadência horária, nomeadamente entre a tarde de sábado e a de domingo, das muitas celebrações eucarísticas na vida de cada vez menos padres com cada vez mais paróquias a cuidar. De tal modo que, quando se chega à última, também já não há vagar para uma oração recolhida e serena. Mas apenas o anseio de que acabe depressa para, finalmente, repousar. Alguns ficam tão fartos que nem celebram a Eucaristia nos dias feriais (de segunda a sexta-feira) a não ser quando algum funeral (em que não possam ser substituídos por diáconos de serviço) o requeira. Até as intenções de «missas de ‘sétimo’ dia» e quotidianas de sufrágio se transferem e acumulam nos «fins de semana». Como isso desgasta e corrói os nossos padres! Como isso faz mal a todo o Povo de Deus! Mas a resposta a este problema tem pouco a ver com o uso deste ou daquele formulário eucológico».
Não é culpa do Vaticano II nem da reforma litúrgica. Creio também que o perigo não virá tanto dos saudosistas do Rito anterior ao Vaticano II, porque são uma minoria a quem é preciso fazer ver, como bem acentuou José Frazão, que não se trata apenas de optar pelo anterior rito ou pelo derivado do Vaticano II. É preciso fazer compreender que o Rito aprovado por São Paulo VI é o que corresponde a toda a reforma do Vaticano II. A fidelidade que nos cabe é à que promana do Evangelho, caminho, verdade e vida, bem delineada pelo Vaticano II, e não a formas que, entretanto, perderam a sua atualidade e vitalidade. A Tradição é força vital exposta ao tempo, sujeita a usuras e modificações. Para que a tradição seja viva tem que ser traduzida como nutrimento para a vida. Isto implica reformas, pois é preciso encontrar novas formas para a inculturação do Evangelho na sociedade de hoje, para que o Evangelho não perca a sua força vital.
Louis-Marie Chauvet, no livro: «La Messe autrement dit. Retour aux fondamentaux», oferece-nos pistas para responder aos problemas postos pela cultura dos nossos dias e, no fundo, para responder à pergunta: «Como viver, hoje, como cristãos», (p. 12, da versão espanhola de 2025, da editorial São Paulo). E desta pergunta depreende-se uma outra: «que liturgia praticar? Porque do que realmente se trata é de adaptar a nossa liturgia católica à cultura atual. Adaptá-la cristãmente, diria mesmo, catolicamente». (p. 12)
É possível essa adaptação? É. E temos os meios necessários para o fazer. Para tal, centra a sua reflexão unicamente na missa, a de um domingo qualquer numa qualquer paróquia. Não para explicar uma vez mais o sentido do Kirie, do Glória ou do Credo, mas para recordar o que se poderiam denominar os «fundamentos da liturgia». É a falta do conhecimento aprofundado destes fundamentos que não ajuda os presbíteros a celebrar com entusiasmo e encanto, como sugere o Papa Francisco na já mencionada carta apostólica «Desiderio Desideravi», de 2022. E sem entusiasmo e encanto, o sacerdote esmorece, a eucaristia banaliza-se, torna-se repetitiva, fastidiosa e afugenta quem precisa de ser constantemente cativado para ir percecionando a maravilha que a Eucaristia é.
Tentaremos apresentar alguns desses desenvolvimentos em próximos textos.