twitter

Não se é democrata por encomenda

Há uma coisa ou seja uma verdade que muita gente que por aí anda (sobretudo políticos e gente dos partidos) não sabe, mas precisa urgentemente de saber e é esta: a democracia, melhor, a prática democrática, não se vende ou dá às pessoas como qualquer unguento milagreiro e em qualquer dose ou esquinaJ a democracia aprende-se e ativa-se numa prática constante com as outras pessoas e através mais dos atos do que das palavras.

E, então, não se é democrata só porque, teoricamente, se sabe de cor e salteado o que é a democracia e se prega isso mesmo muito bem, ou seja alto e bom som aos outros; porque só se é, a meu ver, um bom democrata dando, dia-a-dia, o exemplo, o bom exemplo da verdade, da justiça, da igualdade e da solidariedade.

Estou mesmo em crer e dizer que não se é democrata só porque se pertence e milita num partido ideológica e praticamente democrata e, por isso, assim se deseja ser ardentemente; mas é-se democrata porque assim se nasce e cresce, como nascem e crescem as melhores e mais belas plantas no melhor húmus e na mais fecunda ambiência.

Pois é, embora nos custe a creditar, mas o que por aí muito se tem visto e aplaudido são falsos democratas ou seja pseudodemocratas, isto é, pessoas geralmente bem-falantes e muito, muito habilidosas ou, como diz o povo, pantomineiras que se instalam, aproveitando-se da confusão reinante e assimilando linguagens e roupagens ideológicas muito em voga; e, deste modo, a democracia que vão praticando não passa de uma democracia de funil em proveito próprio e de alguns compadres e comadres.

Depois, o que mais se vê é a ascensão fulgurante de boys e girls, ainda pouco mais do que imberbes, sem nenhuma prova dada de prática de vida a serem recrutados para cargos e serviços públicos de topo e de carreira; e este facto mais não é do que um declarado descaramento de favorecimentos aos naipes de familiares e de compadres e comadres.

Ora, estes ditos pseudodemocratas atuam mais demagogicamente e pouco ou nada pedagogicamente, servindo-se da democracia e não servindo-a; e, então, democratas que são de conveniência e ocasião não curam de saber se agem mais em prol do bem próprio se do bem comum, e, muito menos, que tipo de papel desempenham no aprofundamento e consolidação dos princípios e valores democráticos que dizem defender.

E assim depressa acabam por ser os seus potenciais coveiros, não só pela desconfiança que, assim, criam nas pessoas, como também pela fragilidade e faciosismo que transmitem às instituições que lideram; e esta realidade tem evidentes suportes em tantos e concretos casos de corrupção ativa que sempre por aí campeiam.

Agora, porque ainda tempo é de as pessoas saberem as linhas com que se cosem que é como quem diz de distinguirem o trigo do joio (os homens que servem a democracia dos homens que dela se servem) aqui ficam, a título de reflexão e súmula do que atrás foi dito, duas verdades, duas duras verdades de Jan Linz:

Primeira verdade – A principal causa da queda das democracias é a crise de confiança das pessoas na possibilidade de se resolverem pacífica e justamente os seus problemas;

Segunda verdade – A principal força da democracia resulta das pessoas lhe descobrirem o seu valor em si mesma; e quando as pessoas desistem de ver na democracia um meio para se impor os próprios valores e descobrirem que ela é o melhor meio para que cada um possa ter os seus valores e, deste modo, possa tentar persuadir os outros, podendo embora custar a consegui-lo, então finalmente temos as democracias sólidas.

Façamos, pois, um esforço para tentarmos corrigir os erros e vícios instalados na nossa vida democrática, afastando os pantomineiros e corruptos; e só talvez assim consigamos levar o barco a bom e seguro porto, onde poderemos encontrar os reais valores da liberdade, da igualdade, da justiça social e da fraternidade tio desejados por todos e para todos nós.

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

20 maio 2026