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Quando os adultos “invadem” o jogo

á uns dias perguntaram-me se estaria disponível para ter uma conversa com encarregados de educação, treinadores e atletas de um clube que tem na formação uma das suas principais razões de existência. O convite surgiu pelo facto de alguém ter assistido à apresentação do meu livro “FUT360L - da Pereira à Pedreira”, onde abordo a temática da formação e os papéis que incumbem aos seus diferentes atores. Disponibilizei-me de imediato, pedindo apenas que não marcassem “o encontro” para uma quinta-feira, por motivos óbvios.

Tendo iniciado a minha carreira futebolística no escalão júnior, acredito que com as condições atuais, as crianças de hoje podem ser muito melhores praticantes do que nós alguma vez fomos. Mas, se isso significa crianças mais felizes do que nós éramos à época, permitam-me que duvide.

Uma vez que se lembraram de mim devido à apresentação do livro, nada melhor do que preparar “a conversa” com algumas das ideias-chave que o mesmo contém.

A todos lembrarei que, no desporto em geral e no futebol em particular, se aprende a ser perseverante, disciplinado, solidário, tolerante e a valorizar as pequenas vitórias de cada um. E, que há “fintas” aprendidas no futebol de formação que nos podem ajudar a singrar na vida - desde que a infância e a adolescência não se centrem exclusivamente ao futebol.

Às crianças, entre outras coisas, lembrarei que devem jogar pelo prazer do jogo e perceber que os adversários não são mais do que colegas - às vezes até da escola - que, naquele dia, vestem uma camisola de cor diferente, mas que todos partilham da mesma paixão: o futebol.

Aos pais, entre outras coisas, direi que ao colocarem o filho num clube e o entregarem a um treinador, estão a confiar que essa pessoa é a mais indicada para o educar desportivamente. Pelo que, depois, o que as crianças menos precisam é de pais a dar ordens a partir da bancada, a insultar outros pais, adversários, árbitros, atletas ou treinadores.

Os treinadores serão lembrados que devem responder pela evolução de todos os jogadores, com especial atenção para aqueles que apresentem um potencial acima da média, mas também, que nos escalões onde não há limite de substituições, todos têm que jogar; que estarem constantemente a “soprar” o que a criança deve ou não fazer (chuta, passa, vai…) condiciona comportamentos e aprendizagens; que os jovens devem passar por diferentes postos específicos e conhecerem diferentes variantes táticas do jogo. Por fim, que o ensino se faz cada vez mais através de múltiplos contactos com a bola e do questionamento pós decisões: porque decidiste assim? Que outras possibilidades tinhas?

Dirigentes, pais e treinadores têm de perceber algo essencial: um líder não é apenas quem orienta, é, antes de mais, um educador emocional. E ninguém educa os outros se não começar por se educar a si próprio. Os adultos têm o seu espaço, as crianças também. É fundamental que os adultos saibam, muitas vezes, dar um passo atrás para não invadir o jogo, nem a infância, de quem está a começar. De invasões já estamos tod

Carlos Mangas

Carlos Mangas

20 abril 2026