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O exemplo português

 



 

 

No plano internacional, como se tem visto, o fomento das guerras por parte de potências mundiais com a suposta finalidade de conseguirem mudanças de regime político em países cujo povo vive em opressão, sem liberdade e sem democracia, não têm feito jus ao êxito anunciado. Na verdade, as intervenções militares mais recentes vêm resultando em custos muito superiores aos ganhos, ou seja, o equivalente à mensagem contida na gíria popular de muita parra e pouca uva. 

Aliás, como sucede no Médio Oriente não só com os ataques decretados por Benjamin Netanyahu à Palestina, como se está a ver com os bombardeamentos dos exércitos dos Estados Unidos da América (EUA) ao Irão e de Israel no Líbano. Intervenções externas acordadas com o Presidente, Donald Trump, as quais para além da mortandade, dos feridos e do êxodo das populações, deixam o património desses países arrasado. Porém, de mudança dos regimes e libertação dos povos, nicles.

Já da intervenção americana na Venezuela em vez do derrube do regime, apenas prenderam Nicolas Maduro. Deixando o poder nas mãos dos mesmos que colaboraram na morte, perseguição e prisão dos cidadãos que se lhe opunham. Já no que à Ucrânia democrática diz respeito, a Rússia farta-se de atacar aquele país e, passados mais de quatro anos, aquilo que tem conseguido é tirar a vida aos ucranianos e a devastação o seu território. Ou seja, limita-se a lá despejar mísseis e drones, pouco se importando se atingem equipamentos de saúde, zonas residenciais, escolas, monumentos, etc. 

A meu ver, não há melhor exemplo daquilo que deve ser uma mudança de regime como o português, ocorrido em 25 de Abril de 1974, cujo 52.º aniversário se comemora no próximo sábado. Revolução levada a cabo por um movimento criado no interior das Forças Armadas portuguesas, uma vez que sem os militares, ela não teria pernas p’ra andar. E só o fizeram depois de, previamente, se terem certificado não só da insatisfação popular, como da existência de uma onda oposicionista à guerra colonial e ao debilitado regime. Caso contrário, dificilmente a coisa teria êxito. Só assim se explica o sucesso de uma revolução pacífica.

Pena foi que, logo a seguir ao golpe, a tropa revolucionária se tivesse enredado em querelas de caris político-ideológico que a levou, em termos de escolha de um rumo para o país, à divisão. Gastaram-se demasiadas energias, tempo e recursos nas indecisões surgidas sobre qual o sistema político a imprimir, pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), ao país. Tendo a coisa descambado para as perseguições e mandados de captura, em branco, por motivos políticos.

Tratou-se de uma ala, dentro do MFA, com simpatizantes do modelo comunista cubano que quase nos levou para outra ditadura, desta feita, de cariz soviético. Tentativa, essa, que viria a ser travada por outros militares que decidiram derrubar o PREC, em 25 de novembro de 1975. E ainda bem. Porque, um dia, a seguir a Cuba talvez viéssemos a estar na mira de Trump e do arsenal bélico dos EUA.

Apesar de no presente, ainda, vivermos sob a influência de forças políticas presas aos ideais do estalinismo russo, como se o campesinato e o operariado fossem os mesmos dos anos 20, a maioria da sociedade portuguesa tem vindo a dizer não a tal modelo. Se bem que continue a pairar por cá a ideia de uma transição do país para o socialismo, a fim de, como dono e senhor do Estado, dispor do tesouro público para distribuir eurinhos por quem se nega a produzir riqueza, mas cujo graveto não é mais do que sangue, suor e lágrimas dos contribuintes.

Tudo isto, para concluir que quando um país se acha com superioridade moral para fazer uma intervenção noutro, com a finalidade de alterar as suas políticas internas, tem de ter em conta não só o grau de insatisfação no seio das hostes militares deste, como a certeza da vontade de mudança de regime no seu povo. Uma vez que se algo vier a falhar será sempre este a levar com as represálias da perseguição, cativeiro e morte. 



 

 

 

 

Narciso Mendes

Narciso Mendes

20 abril 2026