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Enfrentando as cachopices de Trump

 

 

 

«Não tenho medo da administração de Trump. Continuarei a proclamar em voz alta a mensagem do Evangelho, aquilo por que a Igreja trabalha. Nós não somos políticos, não olhamos para a política externa com a mesma perspetiva, mas acreditamos na mensagem do Evangelho como construtores da paz» – disse Leão XIV, no voo entre Roma e Argel, no dia 13 de abril passado, ao ser questionado por uma repórter norte-americana sobre as declarações do presidente dos EUA, que questiona as posições do também norte-americano, agora Romano Pontífice. 

 

1. O que dizer das cachopices de Trump, quando, discordando o Papa Leão XIV, naquilo que se refere à guerra – sobretudo na luta contra o Irão – parece ter acendido o rastilho de uma outra guerra? Que tiques de demagogia e/ou de intolerância podem revestir as posições do ‘dono do mundo’ diante a exposição das coisas relacionadas com a fé, por parte do Papa? Não haverá por aí encoberta alguma pretensão de um novo Napoleão vindo do outro lado do Atlântico? Não estarão confundidos os campos de intervenção, fazendo arena de luta? Qual será o estado mental – há quem o considere já senil em avançado estado – desse que se arroja como senhor de tudo e todos, mesmo que ninguém o tenham considerado ou reconheça como tal? 

 

2. Quem tenha pouca consideração pelas expressões religiosas – vimo-los a sair da lura, quais furões assanhados – e a sua intervenção fora do âmbito estritamente religioso encontrará neste particular uma boa oportunidade de menosprezar o papel das fés – sobretudo alicerçadas no Livro – quanto à intervenção na vida pública e política em especial. Embora discordem de Trump, em múltiplas áreas, veem nele um bom argumento para atacar quem crê e faz disso forma de o afirmar na vida social, económica, familiar e de serviço na política. Trump funciona, nesta faceta, como aquele que, para além de rejeitar a vida da fé, pretende conduzir-se sem fé na vida. 

 

3. Repare-se na ressuscitação de conflitos religiosos na América, coisa que muitos consideram que já foram ultrapassados na Europa, varrendo para debaixo do tapete das consciências problemas de natureza ética e relacionadas com a vida. A contabilização dos números de praticantes da ‘fé católica’ na América – são entre 19 a 24% da população adulta – logo foi suscitada como de irrelevância. O esquadrinhar das sensibilidades entre os cristãos e quantos estão no governo de Trump, ocuparam espaço de comentário, sempre na onda de desvalorizar a expressão da crença na conduta social e política. 

 

4. No título deste texto coloquei a palavra ‘cachopices’, numa alusão à forma como os mais novos se comportam na vida, na assunção das suas atitudes e mesmo na inconsistência dos seus atos. Em certos meios mais populares ‘cachopo’ para além de rapaz ainda imberbe, como que configura a designação de alguém que não assume as consequências dos seus atos e, por isso, não é levado a sério, antes o que diz e, sobretudo, o que faz denotam imaturidade e quase infantilismo… E se fizermos passar esta visão para o final da vida, já quando se está velho e a quem tudo parece desculpar-se, não entenderemos um tanto melhor as cachopices de Trump e o que ele gera à sua volta?

 

5. As intervenções do Papa Leão XIV neste primeiro ano de pontificado (ainda incompleto) têm sido discretas, para alguns até em excesso. De algum modo fez assentar o pó – sobre certas matérias e espaços – que se sentia por ocasião do Papa Francisco. Por isso, considerar que a sua intervenção contra a guerra – nos mais diversos quadrantes humanos e sociais – como estando fora do seu âmbito estritamente religioso é um nítido abuso e uma tentativa de condicionar a fé na vida e até a vida da fé. A máquina de propaganda americana de Trump talvez se tenha equivocado e precise de aferir os alvos a atingir e as personagens a abater. Embora não seja inume a observações – dizer ‘críticas’ pode parecer entrar na onda – o Papa Leão XIV vai continuar a sua tarefa de anunciar a palavra do Evangelho, mesmo que haja certos demónios que estrebuchem contra Deus!



 


 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

20 abril 2026