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O Rei D. Carlos e a deputada alemã

Conta-se que um dia, o Rei D. Carlos negou um visto a um embaixador da América Latina, por o seu nome ser Porras Y Porras. E justificava-se o Rei: “não é pelo facto de se chamar Porras, mas sim por ser Porras a dobrar”. Assim, com base em porras e pensando nelas, temos de concordar que vivemos com numerosas e diferentes porras por resolver.


 

Por sempre ser assim, há anos atrás, uma deputada alemã, no seu parlamento, ironizou/rindo dos portugueses porque “pouco politizados e atrasados”, pois até “votam sempre nos mesmos partidos políticos – socialistas e social democratas – sabendo que são mentirosos e que sacam a quem trabalha o fruto do trabalho”.


 

Tal ironia da deputada e afirmações, significam acreditar que o povo português é ignorante ou tem pouca cultura política, entre outras culturas? De certo modo dou razão às afirmações da senhora, uma vez que existe falta de cultura, sobretudo nos assuntos de mais valor e de interesse absoluto da sociedade, da Nação.

 

Sabe-se bem que de uma ponta a outra do país, desde que haja barriguinhas assadas na brasa, caldo-verde, cerveja fresca e futebol, milhares e milhares dispensam o saber.


 

O português da populaça, o despreocupado com o dia seguinte e aquele que desconhece onde estão os filhos à hora da refeição ou do deitar, vê os problemas (as porras) resolvidas numa boa tigelinha de tinto.

 

Todavia, o povo, vai dizendo em quaisquer cantos da rua ou da praça que temos governantes submissos e que não resolvem o futuro ou as porras da sociedade. 

Há quem afirme, ironicamente, que os nossos políticos são como as cobras: não têm pernas nem mãos para trabalhar: apenas rastejam e comem do que caçam.

 

Mas milhares, não pensam nem se preocupam, com as responsabilidades que deviam ter, com o que pretendem ser, para onde querem caminhar e muito menos sabem o que querem da vida, do futuro. Trabalha certa populaça duramente se necessário, é verdade, mas foge ou alheia-se do bem comum: Deixa-se enrolar, como a galinha não voa e demite-se, podendo, à sombra da tigelinha que ama.

 

Ignorância diferente têm os políticos e os ricos, de que nos fala o Evangelista S. Marcos no Capítulo 10, 25. Esses, trabalham pouco, fiscalizam muito, fazem imensas contas e reuniões, levam vida extravagante e de luxo, não olham a despesas, inventam taxas e impostos contra quem trabalha, desconhecem a fome e a vergonha de tantos e cada vez mais arrotam a lagosta e a champanhe.

 

Ignoram muitos de como se planta uma árvore ou quando se deve colocar as sementes na terra. Tantos destes, talvez não tenham visto ainda uma vaca ou uma ovelha a pastar, nem viram um carro-de-bois a transportar a palha ou o estrume que vai adubar as terras dos frágeis agricultores. 

E todo este género de ignorância imprime-lhes o medo de viver: vivem inseguros, desconhecem a busca da felicidade, ignoram quem trabalha e infligem aos outros o alimento de mortas e safadas promessas, as quais nunca causarão a indigestão.


 

Foi este género de ignorância ou de esperteza bacoca que há mais de cinquenta anos se dizia que certos políticos comiam criancinhas ao pequeno-almoço, quando na verdade estes (actuais) ricos de que nos fala o Evangelho, não comendo criancinhas ao pequeno-almoço, comem o pequeno-almoço e o almoço de milhares de criancinhas.


 

A chamada classe média portuguesa – se é que existe – também sofre de outra ignorância, quando se constata que pensam ser mau negócio produzir em Portugal. Há que “cavar” – dizem – e os que ficam serão um “bando de nabos”.

 

Argumentam segurar e garantir o futuro; apontam o capitalismo dos estrangeiros que nos cadeiam; dos imigrantes que lhes suga o emprego; o medo do afundamento da economia nacional e argumentam ainda que o país não apoia o trabalho qualificado, pelo miserável salário que oferecem. Mas vão: fazem-se emigrantes e esquecem que fora, são imigrantes.

 

Também entendo e aceito que a sabedoria não são a coisa mais fina e importante do mundo, uma vez que o mais importante serão sempre os pensamentos positivos, nobres sentimentos, a delicadeza, a generosidade e a solidariedade.


 

A deputada alemã, antes de se dar ao trabalho de ironizar e rir da cultura dos portugueses, se tivesse dado uma volta pelo seu país, com certeza que ficaria calada e era mais uma porra para ela resolver.

Todavia, sou dos que pensam que é preferível sermos salvos pela crítica do que sermos arruinados pelo elogio.


 

Mas que a profissão da ignorância é um flagelo, é verdade. E quem desconhece a própria ignorância e não se dá ao trabalho de se comparar… esse, é um monte de ossos, na vertical.


 


 


 

(O autor não segue acordo ortográfico de 1990)

Artur Soares

Artur Soares

17 abril 2026