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A Hungria e a velha Europa

Há vários anos que muitos declaram que a velha Europa morreu e que já não conta para os movimentos no xadrez geopolítico do mundo. A verdade é que, em parte, não somos decisivos para a forma como o mundo gira atualmente; no entanto, continuamos a demonstrar que o nosso sistema de ideias e o nosso sistema político são os únicos que, no final do dia, garantem ao cidadão uma forma de vida justa, segura e com oportunidades.

A derrota de Orbán na Hungria demonstra bem que, face às complicações geopolíticas que o mundo enfrenta, com conflitos sangrentos levados a cabo por líderes autoritários, existem muitos que querem viver sob um sistema que tem como base o respeito pelas regras processuais e pelos direitos basilares. O resultado eleitoral na Hungria é uma derrota da nostalgia do absoluto que sempre marcou os grandes países mundiais e é, de forma muito irónica, a derrota de dois líderes: Putin e Trump.

O facto de esta derrota pertencer a dois líderes de países que representam ideias diferentes simboliza que, apesar dessas ideias, as suas formas são praticamente iguais e os seus objetivos apenas mudam consoante o continente. São dois líderes que partilham da ideia de zonas de influência, afirmando que a capacidade gravitacional dos seus países, em termos territoriais e económicos, justifica o poder de decisão sobre a política e a soberania dos seus vizinhos. Na verdade, isto não é mais do que um imperialismo bacoco travestido.

Aquilo que estes líderes vivem é uma espécie de nostalgia por um tempo de Guerra Fria em que os EUA e a URSS viviam como deuses do Olimpo. A novidade não reside na postura da Rússia neste momento; há muito tempo que liberais e democratas foram expulsos deste território gigante e todas as suas ideias exterminadas por uma máquina implacável de linguagem histórica. Os EUA foram sempre, mesmo com todos os seus defeitos, um país em que a liberdade tinha o seu campo fértil. Neste momento, essa liberdade foi sequestrada por fanáticos conservadores que acreditam que a sua missão é mudar o mundo para os valores que idealizaram como sendo os mais corretos.

Num país que sempre viveu da tensão de ideias políticas, neste momento esses fanáticos mataram essa tensão e os que estão do outro lado da barricada não se conseguem libertar. É um mundo estranho, onde a Rússia e os Estados Unidos da América incorporam ideias muito similares. Contudo, a Hungria demonstrou algo que muitas vezes esquecemos na Europa: são mais os europeus que querem viver os tempos que se seguiram à queda do Muro de Berlim do que aqueles que querem o apogeu das nações.

Este é o momento de a Europa se relançar como o continente onde o indivíduo pode viver livre e com a segurança de que necessita para projetar os seus sonhos. No Dubai, os influencers estão calados porque o regime assim o obriga; nos EUA, os adversários políticos de Trump nem sabem por onde devem seguir; na Rússia, a oposição é atirada pela janela. O mundo é cada vez mais um bar não frequentável e a Europa, mais do que grandes líderes, precisa de resgatar as grandes ideias com pragmatismo.

Segurança, saúde, educação, justiça - todas aquelas ideias que fizeram a Europa moderna devem voltar a ser o nosso centro de ação. O nosso programa político está escrito há muitos anos; não podemos viver na sua sombra, mas sim garantir que, todos os dias, este está mais próximo da luz.

Não queremos durões para a Europa, mas pessoas normais a assegurar a normalidade do quotidiano europeu e esse será o nosso maior luxo.

Diogo Farinha

Diogo Farinha

16 abril 2026