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Por Entre Linhas e Ideias

O que é que faz com que algo nos pareça belo? Talvez a pergunta não seja só minha, mas também nossa, de quem por aqui passa e lê estas linhas. Foi essa inquietação que me surgiu de forma tão clara nesta Páscoa, passada na Serra das Meadas, em Lamego, onde se encontra uma das paisagens mais idílicas de Portugal, um daqueles lugares raros onde a paisagem parece fazer esquecer o tempo e nos prende o olhar. Do miradouro, abre-se então uma amplitude difícil de traduzir em palavras e vê-se ao longe o Marão e Vila Real, mais adiante uma sucessão de cumes que se prolonga até Espanha, onde se aninham diversas povoações, e, aos pés, o Douro a beijar a Régua, enquanto do outro lado se estende Lamego com a imponência de Nossa Senhora dos Remédios a marcar a paisagem.

Há lugares que são mais do que aquilo que mostram, porque guardam memórias que muitos dos nossos leitores ainda reconhecem, e é isso que lhes dá uma outra profundidade. Foi também aqui que, nos anos 80 do século passado, se disputava um dos mais emblemáticos troços do mundial de ralis (World Rally Championship), e que fazem recordar nomes como Ari Vatanen, Michèle Mouton e Markku Alen, sem esquecer os portugueses Santinho Mendes e Joaquim Santos. E também ali, na mítica subida às Meadas da Volta a Portugal em bicicleta, outros nomes deram cartas como Venceslau Fernandes, Marco Chagas e Joaquim Gomes, como se o mesmo espaço reunisse a serenidade da paisagem com a intensidade do esforço humano e mostrasse que o Belo também se constrói de superação.

É a partir desta mistura de paisagem e memória que a questão se torna inevitável, porque quando dizemos que algo é belo não estamos apenas a descrever o que vemos, mas a tentar compreender a forma como isso nos afeta. Já Platão sugeria que o Belo ultrapassa aquilo que se mostra aos nossos olhos e, por isso, surge tantas vezes ligado a experiências concretas que nos tocam, como ler um livro, ver um filme ou deter-nos numa imagem que nos prende. E é também nesse sentido que Friedrich Nietzsche nos lembra que precisamos da arte para tornar a vida mais suportável, como quando afirma que “temos a arte para não morrer da verdade”.

Mas a reflexão não termina aí, porque como lembra Jean-François Lyotard, filósofo francês, o Belo aproxima-se muitas vezes do sublime, desse momento em que aquilo que sentimos excede a nossa capacidade de o explicar.

Caros leitores, talvez valha a pena olhar para o cinema e para a literatura como lugares onde o Belo se revela de formas inesperadas e nos ajuda a compreender diferentes formas de o pensar. Em O Clube dos Poetas Mortos, o professor interpretado por Robin Williams transmite uma conceção de Belo associada à ideia de carpe diem, enquanto na pintura de Francisco Goya encontramos imagens intensas que nos mostram que o Belo pode surgir até naquilo que à primeira vista nos parece estranho, inquietante ou mesmo sombrio.

Chegados aqui, deixo uma última provocação porque, se o Belo implica uma forma de contemplação que nos aproxima do sublime, resta perguntar se as coisas são belas em si mesmas ou se somos nós que, ao sermos por elas afetados, lhes atribuímos essa qualidade. 

No meio de respostas a mensagens e emails e de tantas outras notificações, espero que ainda encontrem tempo para refletir na seguinte pergunta:


 

- O Belo está nas coisas ou nasce da forma como nos deixamos tocar por elas?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

15 abril 2026