twitter

Às velhas, boas e genuínas amizades

Dei comigo, há dias, ao entardecer de um pardacento e morno dia de primavera (rua fora, mãos nos bolsos, passada lenta e assobio ao vento) a filosofar, para dentro, sobre a amizade; e, então, cheguei à linear conclusão de que a verdadeira, a boa e genuína amizade é como o vinho do Porto: Quanto mais velho, melhor (não sei se alguém, mesmo não sendo filósofo, já disse isto que eu digo, mas para o caso também pouco ou nada interessa).

Ora, no fundo, isto quer dizer que a tal amizade tem que ser caldeada pelo tempo e experimentada nas escolhas como nas adversidades; e resistir-lhes como granito ao ácido ou castanho ao tempo, porque a genuína, verdadeira e boa amizade não é um sentimento que se encontra à venda em qualquer esquina ou se produz com qualquer mistela ou se aperfeiçoa com qualquer unguento.

Estou mesmo em afirmar, preto no branco, que não sei de coisa mais linda no mundo do que uma boa e grande amizade, daquelas que enchem o peito e o coração; e, obviamente, toda ela desinteressada e oblativa, sabendo que terá, no devido tempo e ocasião oportuna, a real e verdadeira recompensa.

E, assim, a amizade deste jaez tem raiz e proveniência no amigo que sabe dar, como comumente se diz, a camisa pelo amigo sem pedir nada em troca, apenas sabendo que lhe será também retrocada quando preciso; mas também estas grandes e boas amizades, tal como os músculos e tendões, carecem de exercício frequente e nunca se conformam com as teias de aranha e o pó dos escaninhos de preciosidades.

Pois bem, nos conturbados tempos em que vivemos, feitos todos eles de egoísmos, individualismos, traições e hedonismos, as autênticas amizades raras são e, como tudo que é raro, cobiçadas e caras; e para que assim seja têm na sua génese e contextura uma forte dose de veracidade, cedência e verdade.

E, se bem pensarmos, com o desencadear desbragado das paixões políticas (cegas, desenfreadas, canhestras e partidarizadas) muita coisa se complicou e confundiu em matéria de amigos e amizades; e, assim, se venderam, se trocaram ou traíram velhos amigos, longas amizades por pratos de lentilhas, de influências bacocas, de compadrios e comadrios malsãos, havendo, por aí, muito quem seja capaz de desfazer um lar, vender um pai ou uma mãe e até a própria alma a troco de uma quimera, de uma ambição, de um naco de poder mesmo sempre falaz, mas imperdoável na cobrança de futuras faturas.

Todavia, penso (e constato já) que a solidão destes pretensos heróis modernos será grande, inexorável mesmo e, amanhã, ao acordarem das suas longas e patéticas miragens, talvez já seja tarde demais para tudo e à sua volta nem restarem sequer aqueles que serviram nas influências, nas paixões, nos compadrios e comadrios; e até porque estes serão os primeiros a fugir, tal qual os abutres fazem dos dejetos, após a dissecação das suas presas.

E é, então, este o momento do retorno infalível aos velhos, aos fiéis amigos se ainda estes lhes restarem, o que me parece pouco óbvio e certos e, claro, este regressar aos fiéis e velhos amigos de antanho já não poderá ser o tempo e modo de reacender as velhas, boas e genuínas amizades que traíram e trocaram, quase sempre, pelos tais pratos de lentilhas.

E, então, um conselho me resta: caso é, meus amigos, dever de, para sempre, conservar e ativar as antigas, sólidas, boas e genuínas amizades que tantas vezes a construir custam elevada dose de cedências, imensos sacrifícios e muitas dores de almas por isso, tempo é de concluir e exc1amar: às velhas, boas e genuínas amizades, hurra, hurra, hurra.

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

15 abril 2026