twitter

Sinais de Páscoa – consolar

 

É grande a riqueza das celebrações da Semana Santa. Cada dia e cada cerimónia estão carregados de uma densidade espiritual nem sempre alcançável.

O gesto do lava-pés, no coração da Quinta-feira Santa, não é apenas um gesto ou um momento de uma liturgia. Recorda quanto Cristo realizou, mas ultrapassa os séculos e, todos os anos, se reveste de matizes diferentes. Cada igreja escolhe aqueles que protagonizam este gesto: desde jovens a casais, de sem-abrigo a reclusos, de doentes a pessoas a celebrar datas festivas.

Este ano, tive a oportunidade de lavar os pés a utentes da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Varzim: pessoas com limitações, em cadeiras de rodas e com idade avançada. Num determinado momento, quando deitava água nos pés de uma senhora, ouvi, como que um sussurro: “Que consolo”. Sei que não era apenas o consolo de alguém a lavar-lhe os pés. Poderia ser. Todos os dias há quem o faça de um modo não simbólico, mas real. Posso imaginar a emoção que sentia no seu coração, que transbordou com a espontaneidade de quem saboreia algo marcante.

Este gesto trouxe-me à mente a Carta Encíclica do Papa Francisco, Dilexit nos (“Amou-nos”). Aí se fala da atualidade da devoção ao Coração de Jesus, mas como convite a que nunca se torne uma forma de superstição ou uma objetivação indevida da graça, porque significa um convite a uma relação pessoal em que cada um se sente único perante Cristo, reconhecido na sua realidade irrepetível, pensado por Cristo e valorizado de forma direta e exclusiva” (n.º 115). Como consequência, o fiel “torna-se capaz de um completo abandono ao Coração de Cristo, onde encontra repouso, consolação e força (n.º 117).

Precisamos de aceitar, reconhecer e viver a unidade do mistério pascal nos dois aspetos inseparáveis, que mutuamente se iluminam. Estamos a viver a Páscoa quando oferecemos a Cristo “os nossos próprios sofrimentos, iluminados e transformados pela luz pascal do Amor”.

Sabemos que a humanidade estará sempre marcada pelo sofrimento. Quotidianamente, multiplicam-se as dores, as tristezas, as desilusões, os cansaços e os medos. Acordamos sem saber o que a vida nos irá reservar: muitas surpresas boas, mas também muitas perguntas que parecem não ter resposta.

A Páscoa diz-nos, nestes cinquenta dias e sempre, que somos amados por Deus – uma grande descoberta que nunca devemos esquecer – e, por isso, consolados pela sua mão protetora. Mas, como recorda o Papa, somos consolados para consolar (n.º 161). Já São Paulo havia recordado esta verdade: Deus consola-nos “para que também nós possamos consolar aqueles que estão em qualquer tribulação, mediante a consolação que nós mesmos recebemos de Deus” (2 Cor 1,4).

A Páscoa acontece sempre que damos vida ao grito de Isaías. Vivendo num tempo de angústias e interrogações, recordava com voz profética: Consolai, consolai o meu povo (Isaías 40,1). A Páscoa necessita de sinais evidentes e eloquentes que despertem uma humanidade adormecida.

Porque somos consolados, em primeiro lugar, sabemos que devemos multiplicar os gestos de consolação. O grande escritor George Bernanos dizia algo de grande profundidade humana: A vida ensinou-me que ninguém é consolado sem que tenha consolado os outros; que nada recebemos sem que primeiro tenhamos dado.

Tornamo-nos exigentes perante os outros e a sociedade. Exigimos permanentemente e esquecemo-nos de que nos devemos tornar semeadores, acreditando na força que a semente encerra. Também nós experimentamos o amargo da cruz e necessitamos de braços que nos ajudem a erguer. Se soubermos reagir com atenção e delicadeza às situações, mais ou menos dramáticas, oferecendo gestos de consolação, também os encontraremos.

O Padre António Vieira afirmava-o com a autoridade de quem sabia penetrar no âmago da vida humana: Se os danos insondáveis podem ter alguma consolação e alívio, é na semelhança ou companhia de outrem que os padeceu iguais.

Consolar não exige muita competência ou conhecimentos. Bastam pequenos gestos — e são esses os fundamentais. Estão ao alcance de todos, em todos os momentos. Bastam pequenas delicadezas ou formas de ternura.

Nem sempre estes gestos resolvem os problemas, mas criam vínculos e estabelecem laços que vão gerando confiança e até alegria, mesmo quando o que humanamente não se compreende nos bate à porta.

Daí que, hoje mais do que nunca, a consolação, experimentada em Cristo, mas, sobretudo, oferecida, seja um sinal eloquente de que a Páscoa continua a acontecer. “Que consolo”, dizia aquela velhinha. Muitas outras vezes poderemos ouvir, sem ouvir, idêntica satisfação.

Eu ouvi. É grande a insensibilidade. Um mundo novo pode começar a acontecer. Urgem barreiras e contrapontos que obstaculizem e impeçam o crescimento do narcisismo de tantos.

 

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

12 abril 2026