Nos últimos dias, para lá da omnipresente guerra no Médio Oriente, saiu polemizada, em artigos de imprensa e nas redes sociais, a possibilidade de a obra de José Saramago, designadamente O memorial do convento, perder o carácter de estudo obrigatório no 12º ano de escolaridade, estando ainda em curso uma consulta pública sobre o assunto. Nas novas ”aprendizagens essenciais” de Português, segundo a proposta em discussão, surgirão outras obras opcionais, designadamente o romance Um Deus passeando pela brisa da tarde, da autoria de Mário de Carvalho, obra ficcional na qual o autor analisa os primórdios da difusão do cristianismo entre as elites da Hispânia romana.
Os fãs de Saramago, a Sociedade Portuguesa de Autores e diversas personagens vertem a sua discórdia sobre esta proposta, exaltando o valor da obra de Saramago, a mestria inovadora da sua escrita – exigente para o leitor e por isso mais meritória, frisa-se –, enfatizando ainda o facto de o autor ser o único português Prémio Nobel da Literatura. Prolongando o seu juízo, os admiradores e defensores de Saramago denunciam a possibilidade agora aberta como uma espécie de ato de saneamento político póstumo, atento o facto de o autor ter sido militante do Partido Comunista.
A história da arte, como também a da literatura, é em boa parte uma coletânea do gosto instalado ou da moda dos tempos. Quem atentar nalgumas obras plásticas contemporâneas (na pintura ou na escultura, por exemplo), incensadas pela crítica e valorizadas nos leilões de arte, como sucede com exemplares do abstracionismo ou até do dadaísmo e do futurismo, não deixa de ter o justo direito de se interrogar sobre a objetividade das cotações ou avaliações estabelecidas pelos “fazedores do mercado”.
Sou leitor de muitas centenas de livros, vários de literatura, ainda que não os prevalecentes. A escrita de Saramago não colhe as minhas preferências, impõe-se confessar. Das minhas malsucedidas investidas pelos romances de Saramago, retenho o carácter torrencial e opressivo da sua narrativa, marcada por uma pontuação heterodoxa, que alegadamente procura reproduzir a oralidade dos personagens de forma mais fiel e intensa, enquanto dificulta a capacidade de reflexão do leitor, arrastando-o para uma ansiedade latente. Curiosamente, se os alunos do ensino secundário se expressarem ao “estilo de Saramago” nas suas respostas, nas provas de avaliação de diferentes disciplinas, não serão bem-sucedidos (ainda que o mesmo se possa dizer relativamente aos intocáveis Lusíadas de Camões, impõe-se ceder).
Quanto à narrativa profusa sobre a importância do Nobel atribuído a Saramago, descontando o facto de ser o único português titular do prémio, impõe-se reter que este prémio não é imune à crítica, como também não imortaliza irredutivelmente, por si, todos os que agraciou. Winston Churchill, sobretudo um político celebrado, foi Prémio Nobel da Literatura, como também o foi Bob Dylan. Winston Churchil recebeu o prémio pelo seu domínio da descrição histórica e biográfica, assim como pela sua brilhante oratória na defesa de valores humanos e Dylan, iconoclasta, recusou-se a ir a Estocolmo receber o prémio que o surpreendera.
Quanto a Mário de Carvalho, autor do belo romance atrás referido, não deixa de ser curiosa a hostilidade comum para este autor, igualmente militante (ou agora, porventura, ex-militante) do PCP.
A maior liberdade na escolha dos autores de literatura portuguesa pelas escolas do ensino secundário dificilmente pode ser considerada malfazeja ou garantidamente nefasta. O ensino da língua portuguesa deve conjugar a apreciação de obras literárias maiores com a missão de incutir nos jovens a capacidade de comunicar corretamente, pois, afinal, a falar bem é que nos entendemos.