No dia 13 de fevereiro, às 21h, foi apresentado na RTP1 o episódio 6 do programa Linha da Frente cujo tema foi “A magia de saber dar”. Este trabalho jornalístico fala sobre os efeitos que o voluntariado tem no cérebro. Estudos em neurociência comprovam que as ações de altruísmo consciente e contínuo promovem a saúde mental, a estimulação do cérebro, conduzindo à libertação de hormonas de bem-estar, como a ocitocina que reforça os laços sociais e a confiança, a dopamina que está associada à sensação de prazer e motivação e a serotonina que reduz o stress. Embora menos óbvios, os efeitos no corpo são também relevantes: redução da pressão arterial, melhoria da saúde cardiovascular e até aumento da longevidade. Além disso, promove algo essencial nos dias de hoje: sentido. Sentir que se contribui para algo maior do que nós próprios tem um impacto profundo na saúde mental. É um investimento em si próprio, enquanto se cuida dos outros.
A evidência científica indica que os benefícios do voluntariado são independentes da idade. Aos jovens e adultos ativos permite desenvolver o nível da construção de competências, da identidade e das redes sociais e até reduzir o stress associado ao trabalho. Os efeitos nos aposentados tendem a ser ainda mais evidentes, especialmente na saúde mental e cognitiva, menor risco de isolamento, menor probabilidade para a depressão, maior sensação de propósito de vida e até menor risco de doenças e de demência. A transição para a reforma pode implicar perda de rotina e de papel social e o voluntariado pode preencher esse vazio.
Existem várias formas de voluntariado, adaptadas a diferentes perfis e disponibilidades: social (apoio a idosos, crianças ou pessoas em situação de vulnerabilidade), ambiental (proteção da natureza, reflorestação, limpeza de praias), emergência (atuação em situações de catástrofe), cultural (colaboração em museus, eventos ou bibliotecas), digital (apoio remoto, como tradução, mentoria online ou combate à desinformação), corporativo (promovido por empresas, envolvendo colaboradores em causas sociais). Para aqueles que se querem aventurar fica a sugestão da escolha duma causa com que se identifiquem, começar por pequenas ações, procurar organizações locais ou plataformas online, e ser consistente pois os benefícios aumentam com a regularidade. Nalguns casos pode ser necessário algum tipo de formação, adquirir competências específicas e também deve existir um envolvimento emocional equilibrado, i.e., saber ajudar sem desgaste excessivo. Mas o mais importante é a responsabilidade e o compromisso. Sem esse compromisso, mesmo o gesto mais bem intencionado perde impacto e pode ser até contraproducente, por exemplo, interrupções frequentes podem prejudicar pessoas vulneráveis (como crianças ou idosos), a falta de continuidade dificulta a criação de relações de confiança e as próprias organizações dependem de alguma previsibilidade. Importa também desfazer um mito: compromisso não significa rigidez absoluta. O essencial é encontrar um equilíbrio entre a disponibilidade real, as expectativas da organização e a motivação pessoal.
Num mundo onde os problemas parecem enormes e impossíveis de resolver, é fácil sentir-se pequeno e impotente. A fábula do beija-flor lembra-nos do poder de cada gesto: quando um incêndio ameaça a floresta, todos os animais fogem. Só o pequeno beija-flor vai buscar gotas de água que traz no seu pequeno bico e as deixa sobre as chamas, uma a uma. Dizem-lhe os outros “Não fará diferença”, e ele responde: “Eu faço a minha parte.”
Num tom mais pessoal de agradecimento póstumo e em discurso direto para o Céu – obrigada avó Margarida Torres que em Gualtar na casa da Bela Vista recebias os desfavorecidos, dando-lhes refeições e a ti, mãe Nelinha Torres, que calcorreaste ruas de Braga e esgotaste os percursos de autocarro acudindo aos necessitados, aplicando injetáveis e clisters, ornamentando altares, fazendo ramos de noiva, e levando miminhos…
Tal como o beija-flor, talvez não consigamos apagar o incêndio. Mas isso não nos dispensa de levar a nossa gota de água, de fazer a nossa parte.