Se há uma coisa na qual todos os bracarenses estão de acordo é que o trânsito é um problema cada vez maior na nossa cidade. Por mais planos e promessas, parece que nada melhora. Há projetos ambiciosos, soluções complexas, investimentos avultados… Muita expectativa mas, no dia a dia, continuam a faltar coisas minúsculas que fariam uma diferença imediata na vida de todos.
Quando começamos a conduzir, acreditamos que o carro nos dá liberdade. Que nos leva a todo o lado, sem barreiras. Mas, com o tempo, torna-se claro que é muitas vezes o contrário.
Em vez de simplificar, o carro condiciona tudo. Os nossos dias transformam-se numa coreografia repetida de trânsito, sempre pelos mesmos percursos. Planeamos a vida em função do carro: o tempo que vamos demorar, o stress que vamos enfrentar, o estacionamento que talvez, ou provavelmente não, vamos encontrar. As decisões mais simples deixam de ser espontâneas: aceitar um convite, ir a casa de um amigo, fazer um desvio, parar naquela loja nova que abriu… É um cálculo constante, e um filtro indesejável.
Há uns anos vivi num país que fez o caminho inverso: reduziu o espaço do carro e devolveu-o às pessoas. Foi aí que percebi que não depender de um único meio para tudo torna a vida muito mais simples. Poder caminhar, pedalar, combinar transportes, parar pelo caminho. Ir.
Hoje olho para Braga com outros olhos. Vejo uma cidade cheia de potencial: ruas onde seria fácil abrandar, ligações que podiam ser feitas a pé, percursos que podiam ser seguros para as crianças. Mas desespero perante a realidade: passeios interrompidos, passadeiras invisíveis, velocidades completamente desajustadas à vida urbana. E perante isso, não há verdadeira escolha.
Se não posso andar a pé com os meus filhos em segurança, então sou obrigada a usar o carro. E, ao fazê-lo, contribuo para o problema que todos reconhecemos.
Podemos discordar nas soluções. Mas talvez haja um ponto de partida comum: uma cidade que dá liberdade às pessoas é uma cidade onde o carro deixa de ser uma obrigação.
E essa mudança não depende apenas de grandes projetos. Começa com passeios contínuos, passadeiras seguras, velocidades controladas, espaço para caminhar e pedalar com confiança, ligações diretas e lógicas entre os vários pontos da cidade.
A questão é que (e é aqui que muitos irão discordar) se o problema é o trânsito, então o carro não pode ser a solução.
Criar condições para outras formas de mobilidade, com pequenas ações (não é necessário destruir tudo para voltar a construir!), permite que as pessoas escolham. E, podendo escolher, será que vamos querer ir todos de carro?