Em mais um trabalho notável na média, o PÁGINA UM (https://paginaum.pt/ , 8/4/26) publicou: “Disforia e saúde mental: intervenção médica não muda padrão de risco psiquiátrico”. Um estudo publicado em Abril na “Acta Paediatrica”, com fundamento em dados nacionais finlandeses ao longo de mais de 20 anos, conclui que, entre adolescentes referenciados por disforia de género sexual, o sofrimento psicológico e a morbilidade psiquiátrica são amiúde elevados antes do contacto com serviços especializados e não mostram uma redução consistente APÓS intervenções médicas. Este trabalho contraria leituras simplistas num debate polarizado: a mudança física de sexo, por si só, não surge associada a melhorias relevantes. Pelo contrário. A investigação levada a cabo por equipas das universidades de Helsínquia e de Tampere, analisou 2.083 adolescentes e jovens adultos encaminhados para serviços especializados de identidade de género entre 1996/2019, comparando-os com 16.643 indivíduos da população geral emparelhados por idade e local de residência. Os dados mostram que a disforia sexual raramente surge num “vazio clínico”: cerca de metade dos jovens do grupo com disforia já tinha recorrido a cuidados psiquiátricos especializados antes da avaliação nesses serviços, contra cerca de 15% no grupo de controlo, sugerindo vulnerabilidade psicológica prévia significativa. O seguimento reforça esse padrão. 2 ou mais anos após o primeiro contacto com os serviços especializados, aproximadamente 61% dos jovens com disforia sexual continuavam a necessitar de acompanhamento psiquiátrico, face a cerca de 14% no grupo de controlo. Em vez dum quadro transitório, os autores descrevem trajectórias clínicas prolongadas e muito exigentes com cuidados médicos extremamente dispendiosos. Quanto às intervenções médicas, realizadas em cerca de 40% dos casos – incluindo terapêutica hormonal e cirurgias torácicas ou genitais –, os resultados não apontam, de modo claro, para uma descida linear da necessidade de cuidados psiquiátricos ao longo do tempo. Em alguns subgrupos, observa-se mesmo aumento extremo da proporção de jovens em seguimento especializado. Os jovens que avançaram para transição sexual tinham, em média, menor morbilidade psiquiátrica – depressão, ansiedade, tendência de suicídio, e afins - antes da intervenção da mudança de sexo, o que impede conclusões apressadas. Não obstante, mesmo depois de ajustamentos – p.e., historial psiquiátrico prévio, ano de nascimento e momento da referenciação –, o risco de necessidade de cuidados psiquiátricos mantém-se muito elevado e semelhante entre subgrupos, independentemente de terem realizado ou não transição sexual. O contexto temporal também é relevante: a partir da década de 2010, a Finlândia registou um aumento acentuado das referenciações e uma mudança no perfil dos utentes – muito mais adolescentes do sexo feminino biológico “que querem ser homens” – e maior complexidade clínica. Há muitas mais mulheres biológicas que querem mudar para o sexo masculino, do que homens biológicos que querem mudar para o sexo feminino. Os casos mais recentes apresentam níveis superiores de morbilidade psiquiátrica antes e depois do contacto com os serviços, sugerindo alteração do perfil clínico. Os autores destacam a robustez do desenho – dados nacionais abrangentes, seguimento longitudinal com perdas mínimas e grupo de controlo emparelhado – e sugerem, com prudência, a hipótese de que, em alguns casos, dificuldades de saúde mental possam expressar-se através de questões de identidade de género. A mensagem final é que a disforia sexual de género em adolescentes tende a coexistir com elevada vulnerabilidade psiquiátrica, persistente no tempo, e não é “resolvida” de modo automático por mudança de sexo, justificando avaliação rigorosa e acompanhamento continuado antes, durante e após as decisões terapêuticas. Aliás, as taxas de suicídio ou tentativa são muito mais elevadas entre os transexuais. Assim como são elevadas as taxas de arrependimento de mudança de sexo. Entretanto o Supremo Tribunal de Justiça dos EUA decidiu por 8 a 1 inconstitucionalizar uma lei do Estado do Colorado que proibia as "terapias de conversão" sexual para menores. A proibição violava a liberdade de expressão, religiosa e educativa protegida pela 1ª Emenda da Constituição. Por outro lado, o Comité dos Jogos Olímpicos decidiu reintroduzir os testes genéticos em defesa dos direitos humanos das mulheres biológicas e da verdade desportiva. Neste momento a FIFA está sob pressão no futebol feminino, pois desconfia-se que uma percentagem elevada dos praticantes são, na realidade, homens biológicos. Assim, procura-se evitar a batota.
Disforia Sexual e Saúde Mental: intervenção médica não altera risco psiquiátrico
Gonçalo S. de Mello Bandeira
10 abril 2026