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Uma vida em caleidoscópio

Vivi na Bélgica seis anos (1979-1986). Posso dizer, depois do seminário em Braga, os anos mais belos da minha vida. Eram os anos setenta de uma Comunidade Europeia em expansão, quando Portugal aderia em 1986 e se respirava uma abertura e desenvolvimento com o entusiasmo de apoios de transformação económica, num país ainda muito atrasado, com os ideais de Abril, mas que não sairia da cepa torta.

Lembro o entusiasmo dos altos funcionários que vinham trabalhar em Bruxelas e mais de duas centenas de alunos portugueses e da lusofonia, que vinham para estudar na Universidade Católica (UCL) de Louvain-la-Neuve, francófona, fugindo ao serviço cívico obrigatório. Já antes havia uma tradição de muitos doutorandos em Leuven (KUL), secção flamenga, visitada por portugueses e brasileiros, e a faculdade de medicina em Woluwe-St.Lambert, em Bruxelas.

Esta cidade era o eldorado de emprego no Schumann para os primeiros funcionários, comissários e deputados portugueses – uma espécie de nomenclatura ocidental para privilegiados –, com altos salários e benesses. Era um verdadeiro oásis na Europa, ao lado da NATO, para altas patentes militares. Mesmo Lovaina foi sempre uma referência para estudantes ambiciosos, com professores, altamente credenciados,e pagavam propinas a preços de ouro… Era eu Leitor na cátedra de Românicas, que recebia alunos africanos, belgas, alemães, holandeses, lusodescendentes, búlgaros,r ussos, etc. que queriam aprender história, língua, tradução e cultura portuguesa, com a mira no futuro de um lugar ao sol, em Bruxelas, África ou Brasil. Era um tempo das grandes opções como era a Europa fascínio para todos os estrangeiros e eldorado de futuro brilhante, académico, social ou político.

No campus universitário com residências de arquitectura contemporânea, havia cerca de 40.000 alunos de mais de 200 países, 1000 estrangeiros, que vinham à Europa fazer ou completar os seus estudos. No centro, a Igreja de S. Francisco, com culto às quartas-feiras, e o celebre ginásio com todas as valências desportivas e a piscina exterior e olímpica.

Esta universidade (UCL), dividida em 1968, por questões políticas e linguísticas, conservou as boas tradições culturais, onde pontificou Erasmus, Juste Lipse , Mercator, e no séc. XVII Jansênio (1585-1638), na (KUL) condenado depois do seu livro Augustinus (1642) que deu origem ao jansenismo. Um dos seus reitores foi preceptor de Carlos V, que veio a ser o Papa Adriano VI(1459-1523). 

Sempre se distinguiu pelas línguas clássicas (grego, latim, hebraico) e pela sua Alma Mater, as faculdades de Teologia e Sociologia, além das técnicas, economia e psicologia, com professores de reputação universal. Sim, porque numa universidade, o mais importante são os seus professores, a cátedra, e não as capas dos seus estudantes, ou as farras académicas… Nisto temos muito que aprender, pois o que distingue uma universidade é essencialmente a qualidade do seu ensino e não a democratização pelo fácil acesso, ou quotas dos seus alunos nas diversas faculdades.

Ao tempo havia muita procura de portugueses, embora bolseiros e elites, e hoje? Não estaremos a assistir a um reprodução endógena e autofágica, onde mais interessa o “canudo” do que a competência científica e linguística? Creio que temos muito que aprender. A prova está na classe política que nos governa. Enfim…

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Rosas de Assis

8 abril 2026