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Por Entre Linhas e Ideias

O que significa, afinal, perdoar? É no contexto desta época da Páscoa que a questão do perdão se impõe de forma mais exigente, porque, entre discursos de esperança e renovação, há uma palavra que tende a ficar para segundo plano e que é, talvez, a mais exigente de todas, a misericórdia. Vista filosoficamente, não é um conceito tranquilo, antes nos inquieta, porque nos obriga a repensar a forma como lidamos com a culpa e com os outros. E talvez valha a pena perguntarmo-nos, leitores do Diário do Minho, o que estamos realmente dispostos a fazer quando falamos em perdoar.

Quando leio a cena da crucificação de Jesus Cristo e encontro aquela frase “Perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”, não sinto um conforto imediato, sinto antes uma certa inquietação. O que ali está em causa não é apenas uma ideia religiosa, mas um gesto radical que rompe com a lógica mais comum da vida, a de responder ao mal com mais mal. Naquele momento extremo, não há justiça no sentido habitual nem qualquer forma de compensação, há antes uma possibilidade difícil que nos interpela diretamente, até onde pode ir o perdão quando o mal foi real, concreto e deixou marcas profundas?

É precisamente esta tensão que Paul Ricœur procura pensar ao afirmar que o perdão verdadeiro é sempre difícil, quase extraordinário. Em La mémoire, l’histoire, l’oubli, insiste que o perdão não pode ser confundido com esquecimento nem com absolvição fácil, pelo contrário, começa quando reconhecemos a gravidade do que aconteceu e quando somos capazes de não negar o mal, mas também de não ficar presos a ele. Nesta mesma linha de reflexão, a Doutora Susana Vilas Boas recorda-nos no seu livro Perdoar Incondicionalmente que “compreender o perdão não é apagar a memória, mas curá-la, permitindo que a memória abra as portas do futuro”.

Por sua vez, Hannah Arendt, ao refletir sobre a ação humana, lembra-nos que, sem a capacidade de perdoar, ficaríamos presos para sempre às consequências do que fizemos. Em The Human Condition, mostra como o perdão é aquilo que permite recomeçar, como se abrisse um espaço novo dentro da própria vida, quase como uma forma de ressurreição que não pertence apenas à religião, mas à experiência humana mais concreta.

A propósito desta dificuldade, há um filme que me acompanha sempre que penso neste tema, Dead Man Walking, conhecido em Portugal como Caminhada para a Morte. Nele, uma freira acompanha um homem condenado à morte e aquilo que vemos não é uma história de redenção fácil, mas um caminho duro, feito de reconhecimento da culpa e de confronto com o sofrimento causado. Ainda assim, no meio dessa dureza, surge algo inesperado, a possibilidade de olhar para o outro para além do seu pior ato, e isso, de algum modo, transforma tudo, mesmo que não resolva tudo.

Curiosamente, esta tensão não é nova. Já na antiguidade encontramos uma reflexão semelhante no famoso mito de Édipo. Ao descobrir que matou o próprio pai e casou com a mãe, Édipo confronta-se com uma culpa que não pode simplesmente apagar nem evitar, restando-lhe reconhecer o que fez e enfrentar as suas consequências. O mito mostra-nos que a experiência humana está profundamente marcada pela culpa e pela necessidade de encontrar uma forma de lidar com ela.

É, talvez, isso que a misericórdia nos pede ainda hoje, não que esqueçamos o mal nem que finjamos que ele não existiu, mas que não deixemos que seja ele a comandar tudo, como vemos de forma dolorosa no que acontece no Médio Oriente, onde a violência se alimenta de si própria, lembrando-nos que esta não é uma realidade distante, porque também na nossa vida existem conflitos, afastamentos e palavras por resolver. Assim, a misericórdia não é fraqueza nem ingenuidade, mas uma escolha exigente que pede mais coragem do que a vingança, porque perdoar não é esquecer, é escolher continuar apesar disso.

É neste ponto que a questão se torna inevitavelmente filosófica e profundamente pessoal para cada um de nós, leitores do Diário do Minho, obrigando-nos a reconhecer até que ponto o perdão faz parte daquilo que somos.


 

- Será que conseguimos imaginar uma vida verdadeiramente humana sem essa capacidade difícil e quase impossível de perdoar?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

8 abril 2026