No estudo das Relações Internacionais, não faltam trabalhos académicos de relevo sobre o que explica, o que fundamenta, o que potencia e o que destrói a credibilidade da ação de um líder político.
A extensa literatura sobre a credibilidade da ação política é também o reflexo da riqueza epistémica devolvida pelo encontro interdisciplinar entre a Ciência Política, a Psicologia, a História, as Ciências Militares, entre outras áreas do saber.
De todas as explicações possíveis para a credibilidade, há uma que se centra numa ideia bastante simples e que facilmente intuímos: trata-se da ideia da credibilidade como estando ligada não tanto à reputação do líder seja como figura implacável seja como figura magnânima, mas à sua reputação como figura coerente, ou seja, consistente no cumprimento da sua palavra, seja ela de ameaça, seja ela de concórdia. Nesta possível leitura, a consistência da ação, alinhada com a palavra, é uma espécie de ativo que o ator político pode transformar em confiança junto do seu eleitorado interno e em prestígio ou em temor junto da comunidade internacional.
No plano internacional, a consistência pode de facto ter um rosto bastante sombrio - pensemos num líder cujas ameaças de invasão, de declaração de guerra, de intervenção militar, de aplicação de sanções económicas ou diplomáticas se traduzem em ações que fazem jus a tais ameaças – e nesse caso, talvez a palavra confiança não seja bem entendida, nem a mais apropriada, sendo preferível substituí-la por previsibilidade. Nestes casos, a credibilidade decorre da previsibilidade da sua ação. Ou seja, como facilmente podemos imaginar, nem sempre a credibilidade de um ator político é em si mesma uma característica positiva, podendo apenas significar que a sua palavra deve mesmo ser levada a sério, porque tendencialmente quando é proclamada na forma de ameaça, as suas consequências são reais e são proporcionais ao que foi dito.
A credibilidade pode por isso resultar da consistência de comportamentos que inspiram ou confiança, ou temor.
Mas, o que acontece à credibilidade de um líder capaz de afirmar tudo e o seu contrário em pouco mais de 24 horas, ou até mesmo em simultâneo, consoante a rede social em uso?
Por outras palavras, a imprevisibilidade pode ser um ativo forte na estratégia política de um líder, mas, que efeitos de curto a médio prazo tem sobre a sua credibilidade e que feitos de longa duração pode ter sobre a reputação política internacional do próprio Estado que lidera?
Sim, estou a pensar em Donald Trump. Estou a pensar na capacidade impressionante de transformar a política externa norte-americana num dos episódios mais parodiantes da mítica série televisiva Dallas, que contou com 357 episódios entre 1978 e 1991. Poucos se recordarão, mas no último episódio de uma das temporadas (algures em 1985), um dos personagens mais queridos das audiências, Bobby Ewing, morre. Ponto. O ator tinha mais vida para além da novela e saiu de cena por um ano. Entretanto, num dos episódios mais icónicos da série, Bobby reaparece tomando um duche para espanto da esposa Pamela. A sua morte não passara afinal de um pesadelo. Fantástico. Os fãs voltavam a ter o seu querido personagem. Mas algo se quebrara na série, apesar de ainda ter durado por mais umas 5 temporadas. Havia um mínimo de ‘veracidade’ no enredo improvável da novela que permitira ao telespectador imaginar-se como sendo parte dele durante anos a fio, e esse mínimo perdera-se com o “episódio do duche”.
A política externa de um país é algo sério, não comparável a uma telenovela. A política externa de um país também não é uma história para crianças e como tal também não pode ser comparável ao conto de Pedro e o Lobo. Mas para efeitos desta crónica, o ponto é mesmo este: credibilidade.
Neste momento, a retórica agressiva de Donald Trump, que ora dá o Irão como totalmente derrotado (e então para que insiste tanto na falta de apoio dos europeus?), ora ameaça lançar sobre o Irão um inferno tal que num só dia o reconduzirá à Idade da Pedra (!!), arrisca transformar a imprevisibilidade (que tem sido um dos ativos mais desconcertantes da sua ação internacional, ao transformar a incerteza numa ameaça) numa fraqueza, numa anedota, numa sucessão de “memes”.
Desnorte político puro? Um misto de ignorância e de arrogância sobre as relações internacionais, a História, os equilíbrios regionais...? Uma estratégia discursiva inteligente para confundir atores globais como a China ou a União Europeia? Um pouco de tudo isto? Seja como for, a imprevisibilidade está longe de ser capaz de compensar o que Donald Trump perde a cada dia em credibilidade interna e externa.
Pôr o mundo à beira de um ataque de nervos, sem que daí se vislumbre o benefício claro da estratégia para a própria sociedade e a economia norte-americanas, é demasiado rebuscado para ser mais do que aquilo que realmente parece ser: estupidez. Sim, também existe nas relações internacionais.
Os problemas de erosão da credibilidade da ação diplomática, política e militar norte-americana não são de hoje. Mas com Donald Trump, essa erosão parece aproximar-se de um perigoso ponto de não retorno.
E é aqui que me interrogo: que preço terá o mundo de pagar quando aquela que outrora (1998) foi chamada de ‘nação indispensável’ (pela então Secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright), é hoje liderada por um indivíduo para quem alcançar o ponto de não retorno na sanidade das relações internacionais parece ser o objetivo mais adulto e mais sério concebível pela sua personalidade histriónica e a sua moral decadente?