O recente documento apresentado no âmbito do PTRR (Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência), concebido como resposta à catástrofe climática que afetou várias regiões do país recentemente, inclui referências à recuperação de equipamentos de base local, como escolas e instalações desportivas, reconhecendo o seu papel na vida das comunidades. No processo de preparação deste plano foram auscultadas as organizações de cúpula do sistema desportivo, nomeadamente, o Comité Olímpico de Portugal, Comité Paralímpico de Portugal, e Confederação do Desporto de Portugal, culminando no debate de ontem em Conselho Nacional do Desporto, procurando uma articulação estruturada entre áreas governativas e as principais entidades dos respetivos setores estratégicos. O plano surge também como oportunidade para apoiar o país, tornando-o mais resiliente e corrigir erros do passado, como a construção de escolas básicas e secundárias sem instalações adequadas para a educação física, ou mesmo a existência de instituições de ensino superior a formar profissionais de desporto e educação física sem dispor de instalações desportivas condignas.
Contudo, esta referência também recorda uma oportunidade perdida num passado recente. O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) representou um dos maiores envelopes financeiros alguma vez disponíveis para investimento público em Portugal. Tratava-se de uma oportunidade única para modernizar infraestruturas e reforçar equipamentos comunitários. No entanto, surpreendentemente, o desporto não teve qualquer expressão nesse plano, praticamente sem referência ou estratégia dedicada. Esta ausência não é inédita. Já no passado, aquando do III Quadro Comunitário de Apoio, foram realizados investimentos significativos em infraestruturas desportivas, mas muitas vezes sem verdadeiro planeamento estratégico. Em vez de se basear em diagnósticos técnicos e em modelos de planeamento territorial, a construção de equipamentos respondeu frequentemente a oportunidades políticas momentâneas ou a pressões locais. O resultado foi a existência de instalações pouco eficientes, por vezes sobredimensionadas ou mal integradas nas necessidades reais das populações.
Ora, há muito que o conhecimento técnico nesta área é claro. O planeamento das instalações desportivas deve seguir uma lógica simples e racional: as necessidades de infraestruturas devem resultar da procura existente e potencial, e mesmo tendência de desenvolvimento desportivo. Isto significa analisar hábitos de prática, características demográficas e climáticas, tipologia de modalidades e distribuição territorial da população. Só assim é possível dotar o país, as regiões e os municípios de equipamentos adequados, sustentáveis e verdadeiramente úteis às comunidades.
Planear instalações desportivas não é apenas construir piscinas, pavilhões ou estádios. É organizar o território, responder às necessidades das populações e promover saúde, inclusão e qualidade de vida. Significa ouvir especialistas, envolver autarcas, dialogar com o movimento associativo e considerar a maioria silenciosa da população que quer simplesmente ter acesso a espaços dignos para praticar desporto.
O desporto, afinal, também conta, e conta muito, quando se trata de construir um país mais saudável, equilibrado e preparado para o futuro.