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Para além da “comoção”

 

 



 

Já Eça de Queiróz se referia, nas suas cartas familiares e bilhetes postais de Paris, à abominável influência da distância sobre o nosso imperfeito coração. Procurando, através desse meio escrito, dizer que quem está a leste esquece e estando longe da vista, longe estará do coração. 

Algo nem sempre intrínseco à sensibilidade humana, mas que por vezes acontece. Aliás, bem patente no nosso habitual “estado d’alma” perante as adversidades das vidas alheias, as quais nos limitamos a lamentar para, logo de seguida, nunca mais nos lembrarmos delas. A não ser que um dia um cataclismo nos bata à porta e nos faça passar por dificuldades. 

Esta imperfeição emotiva, tal como o nosso grande escritor a descreve, parece não ser muito diferente da de agora. Dado passarmos, hoje, parte do nosso tempo refestelados nos sofás, lá de casa, a ver e ouvir a procissão de comentadores na TV; a ler os jornais e a deitar o olho às redes sociais para sabermos das tragédias que assolam o país e o resto do mundo. Não, sem soltarmos de quando em vez os lamentos d’ocasião: – mas que tragédia! Que horror! Para tudo voltar ao início no dia seguinte, esquecendo o ocorrido no dia anterior.

Ora, numa sociedade cada vez mais mediatizada, a que nem a portuguesa escapa, achei que as emoções a que se refere o Eça, de alguma forma, nela se encaixam. Afinal, numa altura em que muito se fala em alterações climáticas, cujo nosso país acaba de colher um dos seus efeitos com a tempestade Kristin da qual fomos bombardeados a toda a hora com imagens da destruição – com o que é que andavam preocupados os nossos governantes? Em introduzir, á custa do erário público, a SportTV nos gabinetes para ver a bola e a criar uma sala de estética para melhorarem a sua imagem. 

De resto, querem lá saber do verão que aí vem e de tratarem, quando chove no inverno, do aprovisionamento de água em excesso, a fim de colmatar a seca que poderá vir por aí. Ou seja, caso o país arda não estão nada aflitos se não houver o precioso líquido não só para apagar os incêndios, como para a agricultura. Pois basta mudar a ministra da pasta dos fogos e está feito. 

Do mesmo modo que, em época estival, não preparam o país para os temporais da invernia. Como se já não bastasse as Autarquias Locais muito pouco fazerem no que toca ao licenciamento indiscriminado não só do plantio arbóreo e das construções em leito de cheia, como nas encostas abruptas e junto à orla costeira. Depois, lá virão o acostumado espavento: – “coitada daquela gente, o que lhe havia de acontecer!”. 

É por demais sabido que as forças da natureza nunca ninguém as venceu e que o homem, sempre que aparecem com o seu imprevisível “mau-humor”, nada pode fazer. Nem as armas nucleares, mísseis, drones, etc. com que os seres humanos se guerreiam, nos dias que correm, lhes farão mossa. Competindo a quem governa usar a inteligência e os recursos financeiros para pôr ordem no território a seu cargo. 

Com efeito, apesar do alvoroço e dos lamentos que se seguiram ao “dilúvio”, leirienses, conimbricenses e os habitantes de todas as zonas afetadas pela violenta intempérie tentam, ainda, reerguer-se do lameiro e dos destroços. A que não tem faltado a ajuda voluntária de muito boa gente, pronta a fazer com que as pessoas voltem para as suas casas e atividades diárias. Pois se há quem se sinta distante e pense: – “não conheço ninguém; não me diz respeito” – há sempre quem se prontifique a ajudar.

Depois, com as guerras a estalarem pelo mundo, encharcamos os ouvidos com os reles ataques ao amor à Pátria e trocamos os valores históricos de Deus e da família por um patriotismo futeboleiro. E em vez de nos prepararmos com conta peso e medida para defender o que é nosso, andamos a contar com o improviso habitual. Pergunto: para além da “comoção” lusa, em caso de agressão externa, será que teremos algum voluntarismo militar, humano e patriótico capaz de defender Portugal? Responda quem souber. 

Narciso Mendes

Narciso Mendes

9 março 2026