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Turismo – resultados & consequências (*)

 

Decorreu em finais de fevereiro a BTL – bolsa de turismo de Lisboa, da designação em inglês ‘better tourism lisbon travel market’ – onde, como de costume, foram apresentados projetos atuais e futuros para este setor da nossa vida coletiva com cada vez maior importância e em busca da abrangência do significado. Recorrendo a alguns aspetos específicos da edição deste ano, tentaremos encontrar alguma explicação para este fenómeno que parece a grande descoberta – com os possíveis riscos – dos nossos dias… 

 

1. A BTL 2026, na sua 36.ª edição, reuniu mil e quinhentos expositores com cerca de seiscentos eventos, mais de 82 mil visitantes e apresentou mais de cem destinos internacionais.

Para além do Brasil, como destino internacional convidado, a BTL 2026 contou com a presença destacada da Figueira da Foz, o município convidado desta edição. A região turística do Algarve foi escolhida como destino nacional convidado, com o intuito de promover a diversidade e as características desta região: desde o sol e o mar até ao turismo de natureza, passando pela cultura, património, gastronomia e vinhos.

Segundo dados divulgados os objetivos desta edição eram: a qualificação e a diversificação da oferta como apostas estratégicas da BTL, com destaque para o enoturismo, a cultura, o turismo religioso, a saúde e bem-estar, a inovação tecnológica e digital no turismo, bem como para a oferta LGBTI+. O evento pretendia ser um ponto de discussão sobre as prioridades futuras do turismo, contribuindo ativamente para o desenvolvimento do setor. 

 

2. Atendendo aos dados, pretensões e caraterísticas desta ‘feira’ (num sentido amplo e eufemístico do termo) temos de ir em busca de outros dados que nos ajudem a perceber o alcance deste setor no tecido humano, cultural, económico, político…nacional. Segundo os dados oficiais, embora ainda provisórios, dizem-nos que, em 2025, houve 32,5 milhões de hóspedes em estabelecimentos de alojamento turístico e 82,1 milhões de dormidas. Nos aeroportos verificaram-se 36 milhões de desembarcados (com três quartos de internacionais). As receitas geradas pelo turismo ascenderam a 29 mil milhões de euros… Os mercados com maior relevo foram do Reino Unido, da Alemanha e da França.

 

3. Perante estes resultados – de movimento em pessoas e de gestão em dinheiro – temos de nos interrogar sobre as consequências para a nossa cultura, na economia e quanto à perceção do significado geral da vida nacional. O turismo é já considerado um pilar estrutural da economia portuguesa, representando 16,6% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2024… e estávamos a sair do tempo da pandemia. 

A hotelaria continua a liderar a escolha dos turistas, com cerca de 58 milhões de dormidas, seguindo-se o alojamento local com dez milhões de dormidas e o turismo em espaço rural e de habitação com cerca de dois milhões de dormidas. Parece que o país substituiu outras áreas de economia pelo turismo, com todos os riscos inerentes a alguma alteração da ordem/paz mundial, podendo ruir por insolvência de procura, como aconteceu nos recentes anos da pandemia.

 

4. Sol, praias, gastronomia, património e tiques de religião não serão sempre os que favorecem o turismo e muito mal vai um país que se quedar pela simpatia e preços mais ou menos acessíveis. Enquanto alicerçarmos o nosso futuro em viver à custa de quem nos venha visitar depressa cairemos do pedestal do pretenso sucesso para o atoleiro da crise, do desemprego ou dos baixos salários. Será que é isto que queremos continuar a promover? Os resultados e as consequências vê-las-emos a curto prazo! 

 

(*) O símbolo & (ampersand ou e comercial) é um logograma que substitui a conjunção aditiva "e". É utilizado principalmente em nomes comerciais (ex: "Alves & Cia."), logotipos, referências bibliográficas, títulos ou para concatenar informações, sendo desaconselhado em textos formais ou frases comuns… Usamo-lo neste título para tentar provocar a reflexão – se é que a há – entre os resultados e as consequências em conexão com aquilo a que chamamos de ‘turismo’.

 



 


 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

9 março 2026