Há ironias históricas que parecem escritas com especial sentido de humor. Penamacor conhece
bem uma delas.
As eleições presidenciais, cuja segunda volta terminou no passado domingo, tiveram um resultado invulgarmente claro na democracia portuguesa. António José Seguro alcançou a maior margem eleitoral de que há registo desde o 25 de Abril – cerca de três milhões e meio de votos –, vencendo em 306 dos 308 concelhos.
Mas, se os números impressionam, o seu significado é ainda mais profundo. Esta foi sobretudo uma vitória da moderação, da serenidade, da decência institucional e da confiança na democracia representativa. Num tempo marcado por radicalizações e simplificações perigosas, o eleitorado optou claramente pelo equilíbrio.
Contudo, sendo uma vitória pessoal, ela não pode ser vista apenas por esse prisma. Recordo aqui a célebre frase de José Ortega y Gasset: "Yo soy yo y mis circunstancias". Somos o que somos, mas somos também a terra que nos moldou, a família que nos criou, as ruas onde crescemos, as escolas que nos ensinaram, as pessoas que nos transmitiram um certo modo de ser e de estar.
Nesse mapa intimo surge naturalmente Penamacor. A vila beirã, antiga e discreta, vê agora um dos seus filhos ascender à mais alta magistratura da República, com uma legitimidade inequívoca. É um orgulho silencioso, desses que dispensam uma proclamação excessiva.
Quando alguém chega tão longe com o voto de tantos, é evidente que a terra natal participa simbolicamente dessa conquista.
E, no entanto, Penamacor já conheceu outro "rei". No belo romance histórico "O Império das Sombras", do meu amigo Fernando Pinheiro, recorda-se o ambiente nebuloso que se seguiu à batalha de Alcácer-Quibir e ao desaparecimento de D. Sebastião. Entre os vários impostores que exploraram o mito do rei regressado, houve o chamado "rei de Penamacor", figura que conseguiu iludir as populações da Beira e viver, por algum tempo, da esperança colectiva. O desfecho foi severo: acabaria por ser condenado às galés in perpetuum, embora a lenda lhe conceda fuga para parte incerta.
Era o tempo do sebastianismo, de um país órfão à espera de um salvador e, por isso, vulnerável ao embuste. O "nevoeiro" sentido era sobretudo político, emocional, quase metafísico.
O que se pretende com esta comparação não é nivelar épocas - é sublinhar contrastes. Onde antes houve ilusão, há agora legitimidade. Onde houve névoa, há claridade.
Talvez seja essa a melhor leitura do momento presente. Se outrora houve um falso rei que emergiu da crença e da fragilidade colectiva, hoje Penamacor vê sair de si um Presidente legitimado pela vontade clara e massiva dos portugueses. Não um produto da fantasia, mas da escolha clara, livre e democrática.
Penamacor – e com ela a Beira e Portugal – está de parabéns, quando a democracia vence, como venceu, com tamanha clareza, honrando não apenas o eleito, como ainda todos os que nele depositaram a sua confiança.
Entre o nevoeiro e a luz, passaram séculos. Da terra onde um dia se acreditou num rei improvável, nasce agora um Presidente legitimado por milhões.
É, de facto, uma bela ironia da história. E sobretudo um sinal de que a democracia portuguesa está viva e consolidada.
Será que um dia esta vitalidade democrática não poderá dar a Portugal um Rei verdadeiro, num país que, com quase nove séculos de existência, teve quase sempre Reis na chefia do Estado?