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Zonas de Influência – Que lugar para a Europa?

Durante muitos anos cresci com a ideia de que a única forma de manter a paz seria estarmos sempre preparados para a guerra. A doutrina de Kant ensinava-nos que as democracias não se combatem entre si, mas que é necessário estarmos prontos para dizer aos nossos adversários que, caso o conflito bélico se aproxime, teremos meios e capacidade para reagir com a força necessária. 

Essa visão estratégica levou os Estados Unidos da América, desde a sua fundação até aos dias de hoje, a entender o exercício do poder militar como uma expressão de soberania política, tornando-o um pilar essencial da sua construção nacional. Hoje, com a diluição do conceito clássico de Estado – delimitado por território, povo e cultura – os europeus parecem ter esquecido que soberania implica sempre capacidade de defesa. Uma união sem convergência de forças armadas será sempre uma ilusão num mundo em que os posicionamentos geopolíticos dependem mais de vontades individuais do que de processos formais como o sistema europeu.

A União Europeia, construção que permitiu ao continente escapar à mutilação constante enraizada na nossa história, pecou, desde a queda do Muro de Berlim, ao acreditar que a mera ligação de interesses económicos bastaria para garantir um espaço de liberdade duradouro. Nós, portugueses, deveríamos saber, pela nossa própria história, que, por maiores que sejam os nossos feitos, a nossa soberania sempre dependeu, em larga medida, de equilíbrios com espanhóis, ingleses e franceses. A nossa afirmação como Estado-nação foi frequentemente condicionada por acordos diplomáticos que, com notável habilidade, fomos conseguindo alcançar.

Devemos reconhecer que, ao evitar discutir a construção de uma verdadeira capacidade estratégica europeia, tornámo-nos dependentes dos Estados Unidos da América. Durante muito tempo, essa dependência era vista com esperança. Hoje, porém, vivemos com um aliado que já não partilha integralmente os nossos valores e que olha para o seu sistema político e social de forma diferente. Não foram a Rússia ou a China que mudaram radicalmente a sua estratégia: são os Estados Unidos que se encontram num processo de transformação da sua própria essência.

Mais do que compreender que o mundo mudou, que a segurança sempre deveria ter sido uma prioridade, precisamos reagir a essa mudança. Como afirma Mark Carney, devemos assumir uma política de “realismo baseado em valores”. A velha Europa deve reencontrar aquilo que sempre foi e resistir às derivas ideológicas que surgem, à direita e à esquerda, como pragas cíclicas. A nossa história foi sempre marcada pela tensão criativa entre progressistas e conservadores, e foi dessa clivagem, assente num solo comum, que construímos o melhor da Europa.

Hoje, deixámos de discutir economia, deixámos de falar de crescimento, e tudo – absolutamente tudo: é interpretado através de uma lente puramente cultural e relativista. Abandonámos o objetivo de promover igualdade através da construção de uma classe média robusta e politicamente influente. Falhámos em repensar e reformar o Estado social, aliando tecnologia a políticas estruturais, optando antes pelo aumento da burocracia e do défice em sectores essenciais. 

Deixámos de ser protagonistas em muitas indústrias e transformámos as nossas cidades em museus a céu aberto, relegando a qualidade de vida para segundo plano. Não é possível ao cidadão participar plenamente na polis quando é diariamente expulso dela pelos preços da habitação, da restauração e dos serviços básicos.

Para progredirmos, precisamos recuperar o debate saudável entre progressistas e conservadores, assente no terreno comum do liberalismo europeu. Devemos marginalizar os fanatismos. As pessoas só deixarão de ouvir a música do bandido se a alternativa oferecer esperança. Este é um momento de afirmação de uma nova ordem mundial e podemos ser protagonistas nela. No entanto, precisamos de mais união e, acima de tudo, de voltar a fazer da Europa o território natural de uma classe média forte.

Diogo Farinha

Diogo Farinha

19 fevereiro 2026