Pude testemunhar in loco, com espanto e emoção, o rasto de destruição e desalento que a passagem da tempestade Kristin deixou em Portugal.
Trouxe dor, trouxe perdas, muitas delas irreparáveis, e deixou um rol de perguntas sem resposta.
Num país habituado a celebrar festividades com pompa e fogo‑de‑artifício, continuamos dramaticamente pouco preparados para as catástrofes, sobretudo quando o céu se fecha e a chuva cai com fúria.
É como se vivêssemos para o espetáculo, mas recusássemos o ensaio para o imprevisto.
No verão, os incêndios espalham pânico. No inverno, repetem‑se as imagens de sempre: estradas cortadas, famílias desalojadas, linhas elétricas tombadas, zonas de risco “surpreendidas”, novamente, por cheias que todos anteciparam.
Falta-nos a cultura do prevenir e o hábito do planear. A resposta chega sempre depois e, demasiadas vezes, é iníqua: desigual no alcance, irregular na rapidez, dependente mais do código postal do que da gravidade do problema em si.
Há, no entanto, algo que nunca falha. É nos dias de drama que emerge o melhor de nós: a solidariedade espontânea, o voluntariado sem hesitação, os operacionais de primeira linha: bombeiros, proteção civil, forças de segurança que enfrentam o caos com meios insuficientes, compensando com coragem aquilo que o Estado nem sempre garante.
Também os serviços essenciais, do abastecimento à saúde, resistem com tenacidade. São rostos anónimos de uma resposta que se sustenta mais na dedicação do que na organização.
O que falta são os pilares estruturais.
Faltam meios ajustados à nova escala dos fenómenos climáticos, que já deixaram de ser exceções.
Faltam infraestruturas devidamente dimensionadas e mantidas para um país vulnerável à erosão, às inundações e ao vento extremo.
Faltam apoios que cheguem às populações de forma rápida e sem burocracia.
Falta, sobretudo, a capacidade de transformar o que aconteceu ontem em ação diferente amanhã.
Num tempo em que o clima se tornou um novo campo de batalha da sobrevivência nacional, o desígnio de qualquer governo deveria ser preparar, não apenas reagir.
Preparar é investir na resiliência das comunidades, na educação dos cidadãos, e na requalificação das redes urbanas e rurais.
É impedir que a solidariedade heróoica de uns continue a substituir o dever de planeamento de todos.
A tempestade Kristin, como tantas antes dela, não trouxe apenas vento e chuva. Trouxe um espelho: o de um país que ainda confunde sorte com estratégia, coragem com política e improviso com resposta.
Quando o próximo temporal chegar –- e chegará – - o verdadeiro desafio será este: estaremos, finalmente, preparados para o drama?