1. Uma verdadeira equipa de futebol não se constitui com onze jogadores muito simpáticos, muito bem falantes, muito amigos do treinador, mas com um lote de futebolistas capazes de desempenharem bem as suas funções e decididos a darem o máximo rendimento.
As grandes preocupações do treinador consistem em saber escolher os futebolistas mais aptos, em pôr cada um no lugar certo, em acompanhar permanentemente as jogadas, em fazer no momento oportuno as correções e alterações que o todo da equipa exigirem. Compete-lhe, fundamentalmente, ensinar a jogar, pôr a jogar, ver como se joga, corrigir erros e, na hora h, substituir quem deve ser substituído.
O treinador não deve ser um faz-tudo. Não deve atuar como se a equipa fosse ele ou sobrepondo-se à equipa. Mas também não deve, uma vez constituída a equipa, alhear-se dela, não cuidando da forma como joga e como é preciso que jogue.
2. Um dos atos mais importantes de quem dirige é a escolha de colaboradores. Se acertou, poderá dizer-se que tem o êxito garantido. Se não…
Escolher colaboradores. Tomar consciência de que não sabe tudo, de que possui uma limitada capacidade de trabalho, de que necessita de um bom grupo de trabalho.
Ai das comunidades cujos líderes não têm consciência das suas limitações, que têm de ser eles a despachar tudo e a assinar tudo, a estar em toda a parte!
Quem não sabe delegar; quem não é capaz de distribuir trabalho; quem não sente necessidade de ouvir a opinião de outras pessoas antes de tomar decisões de responsabilidade, não será, por certo, um grande chefe. E como um fraco rei faz fraca a forte gente, os inconvenientes que daí resultem só poderão surpreender os mais distraídos.
3. Na escolha de colaboradores podem seguir-se diversos critérios. Há quem coloque à frente de tudo a simpatia do colaborador e há quem prefira a competência, mesmo que a simpatia não seja por aí além. Pode haver quem se faça rodear de meninos bonitos e há quem procure, acima de tudo, constituir equipas de trabalho eficazes.
Nada tenho contra os meninos bonitos – como não devo ter nada contra ninguém – mas quando se trata de trabalhar, se os meninos bonitos não forem competentes e dedicados…
4. Um menino bonito pode ser muito leal ao chefe. Pode ser um homem da sua inteira confiança. Pode ser alguém que traga o chefe devidamente informado acerca de tudo e de todos. Pode ser alguém que, persuadido de que o chefe tem sempre razão, em nada o contraria, mas diz amém a tudo. Umas vezes para não desgostar o chefe, apontando-lhe os pontos fracos dos seus raciocínios e dos seus projetos; outras porque, convencido de que a simpatia, o sorriso e o abanar positivamente a cabeça até o dispensam do trabalho de pensar.
5. Tenho para mim que os melhores colaboradores, não sendo porventura muito simpáticos, são os mais capazes, os mais honestos, os mais voluntariosos, os mais persistentes e dedicados.
Tais colaboradores podem tornar-se incómodos para o chefe. Porque atuam como advogados do diabo. Porque levam a rever posições e a desmontar esquemas. Porque dizem que será melhor mudar de rumo ou adiar uma tomada de posição. Porque, trabalhando, também dão trabalho. Porque pensam pela sua cabeça e quando discordam do chefe têm a coragem de lho dizer. Com toda a amizade, com todo o respeito, mas com firmeza.
6. Sendo incómodos, tais colaboradores são verdadeiramente eficazes. Contribuem para o prestígio do chefe, pelo trabalho que o ajudam a realizar ou que o chefe assina.
Não criando ondas, os meninos bonitos podem comprometer o chefe, dada a sua inoperância e ineficácia. Podem ser algo de semelhante aos balões de borracha: muito lindos, muito faladores, mas… só têm vento.