Estou a escrever este texto no domingo de eleições presidenciais de 2026 entre as 18 e as 19 horas, ou seja, antes do fecho das urnas em Portugal continental. Escrevo sem título e o título que eu gostaria de escrever era “A democracia venceu”. Isso significaria que os candidatos que fossem à mais que previsível segunda volta seriam democratas.
Entendo por democratas aqueles que defendem um regime político baseado na dignidade da pessoa humana, um regime empenhado na luta pelos direitos fundamentais de todas e cada uma das pessoas e, assim, na construção de uma sociedade livre, justa e solidária. Entra também na definição de democratas aqueles que respeitam o direito das minorias e os resultados das eleições. A democracia é um regime em que, no fim das eleições, não se discute o resultado delas quando nos são desfavoráveis, mas o significado desse resultado.
Democratas são ainda aqueles que respeitam o imigrante, tentando proporcionar-lhes condições de vida dignas, exigindo, claro, reciprocidade. Quem olha para o estrangeiro como um inimigo, não é um democrata e muito menos um cristão.
Democratas são também aqueles que lutam pela Paz, sofrendo com os que sofrem por causa da Guerra.
A meu ver, não são democratas aqueles que, embora se digam como tal, uma vez chegados ao poder, mesmo por eleições livres, cuidam de não o largar, utilizando para tal meios inaceitáveis tais como, entre outros, a perseguição dos vencidos, o domínio dos meios de comunicação social, o controlo do poder judicial e também do sistema eleitoral.
Estes “democratas”, antes de acederem ao poder, afirmam respeitar todas as regras da democracia, mas uma vez lá chegados transformam-se muito rapidamente e impõem a sua “democracia”. Os vencidos que se cuidem, pois vão ter a vida bem difícil.
Será preciso demonstrar isso com o que se está a passar nos Estados Unidos? Podemos dizer que a democracia neste país ainda não está derrubada, mas outra não é a vontade de quem chegou ao poder. Alguém pensa que estará disposto a deixar o poder pela vontade da maioria? Lembremo-nos do assalto ao Capitólio. Como alguém dizia recentemente, “a extrema direita está a tomar conta dos USA”. Para além do que se está a passar a nível interno, concebe-se lá, a nível externo o ataque aos aliados (veja-se a Gronelândia e as tarifas), o apoio ao actual governo de Israel, a cumplicidade com a invasão da Ucrânia ou ainda a ameaça a países soberanos, sem qualquer respeito pelo Direito Internacional?
Também temos falsos democratas entre nós. Importa ter o máximo cuidado com eles. Não podemos ser tolerantes com os intolerantes. Daí o título que escolhi. (Esta parte final já foi escrita depois dos resultados das eleições e o texto apenas foi revisto para publicação).