twitter

Hábitos bons versus hábitos maus

Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), filósofo ateniense chamou ao hábito a nossa segunda natureza; e isto porque o hábito, não sendo uma aptidão natural mas adquirida, entranha-se de tal forma em nós – seja no ser, seja no estar – que nos faz lembrar os próprios instintos; e, daí, o nosso povo sempre afirmar que o hábito faz o monge e somos animais de hábitos.

Todavia, quando um hábito se escapa ao poder da vontade, luta contra ela e muito dificilmente se deixa vencer; é, então, que a tal hábito damos a designação de vício porque consigo arrasta formas de ser e estar contrárias à nossa intrínseca natureza.

Mas, falemos de bons hábitos, dos hábitos mais simples e importantes que podemos construir e contrair como sejam vestir, lavar os dentes, escrever, apertar os sapatos, fazer a barba, tocar violino, etc. etc. etc. ora, como igualmente os de falar corretamente, estudar, ser atento no cumprimento de normas sociais, dar recados, fixar lembranças, dar bons conselhos, ser pai ou mãe atentos, ser filho respeitador e carinhoso.

E, como a criação de qualquer hábito resulta da repetição frequente de um ato ou ação, facilmente nem pensamos nos gestos que fazemos, como adquirimos o hábito de frequentar sempre o mesmo café ou de nos sentarmos no banco do mesmo jardim, só com prolongada ausência o podemos quebrar; e nesta mesma ordem de ação se incluem os hábitos de levar a mão à boca quando se deixou de fumar, de se deixar adormecer vestido, de levar uma vida de boémia ou de não prescindir do duche diário.

Ora, quando dizemos que alguém conduz bem um automóvel, anda seguro de bicicleta ou escreve depressa e bem no computador é porque aprendeu e está muito bem habituado; assim como quem se habituou ao frio, à neve ou ao barulho dos vizinhos acabou por se tornar menos friorento ou menos sensível ao som, como de alguém que se habituou todos os dias a fazer a mesma passeata ou a ir à padaria onde o encontramos todos os dias.

E ai de nós se diariamente tivéssemos de aprender aquilo que praticamos automaticamente como seja: apertar os cordões dos sapatos, conduzir o automóvel, fazer a cama ou a barba, pentear o cabelo, fazer as tostas para o pequeno-almoço, pegar no filho ao colo; e isto compele-nos a não gostarmos de mudar muitas coisas ao longo da vida como sejam a frequência de centros comerciais, a convivência com as mesmas pessoas, ja audição das mesmas músicas ou a visualização dos mesmos filmes.

Agora, pensemos no que acontece quando o hábito se transforma em acomodação perniciosa e nos leva, por exemplo, na vida familiar a transgredir as regras de bem conviver; e, assim, deixarmos de respeitar a forma de ser e estar dos membros familiares, de mantermos a sã e boa harmonia e de não sermos membros ativos e agregadores da paz, segurança e conforto do lar.

E, então, se tal acomodação nos leva na vida política do país a deixar correr, a aceitar passivamente as formas de governação menos justas e a imposição de ideias menos próprias, de não divergirmos e de perdermos o dever de criticar e o poder de dizer não, passamos a ser membros sociais de fraca ação e pouca ou nenhuma contestação; e, deste modo, colaboramos muitas vezes na abertura de portas e janelas que permitem o aparecimento, alastramento e imposição de formas de governação autoritárias, demagógicas e despóticas.

Cultivemos, pois, os bons hábitos e digamos tanto quanto possível não aos maus hábitos, aos vícios; e, mormente, deste modo nos convençamos que estamos a colaborar na construção de uma sociedade mais solidária, justa, harmoniosa, igualitária e feliz para todos nós na lógica dos bons hábitos versus os maus hábitos.

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

21 janeiro 2026