Deus tem um nome. O nome de Deus é amor (cf. 1Jo 4, 8. 16).
Foi o que nos recordou o Papa Bento XVI na sua primeira encíclica («Deus caritas est»), publicada faz 20 anos a 25 de janeiro.
É óbvio que há em Deus um poder, o supremo poder aliás. Acontece que o poder de Deus é o poder do amor.
É o Seu amor poderoso que torna o Seu poder amoroso. Enquanto todo-poderoso, Deus surge como todo-amoroso.
O poder de Deus é o poder do amor desarmado. É por isso que, como lembra Bento XVI apelando para São João, o amor em Deus não é uma característica, mas uma identidade; afecta não apenas o agir, envolve também o ser.
Em síntese, Deus é amor ou, como enfatizava François Varillon, «Deus não é senão amor».
A esta luz, tirar o amor a Deus e tirar Deus ao amor redunda numa injustiça e num empobrecimento.
Tirar o amor a Deus é desfigurá-Lo e fazer d’Ele o que Ele não é. Tirar Deus ao amor é amputá-lo e destituí-lo da sua manifestação mais nobre e da sua expressão mais elevada.
Nada melhor, portanto, do que ver Deus a partir do amor e do que ver o amor a partir de Deus. Aliás, em Jesus de Nazaré podemos facilmente aferir como Deus é amoroso e como o amor é divino.
Entende-se, pois, que Bento XVI tenha sentido a necessidade de nos advertir acerca «do nexo indivisível entre o amor a Deus e o amor ao próximo».
No seu documento programático, o Papa Ratzinger foi ao ponto de realçar que «a afirmação do amor a Deus se torna uma mentira se o homem se fechar ao próximo».
Que o fundamental do cristianismo envolve o amor ao próximo está documentado numa declaração nuclear do texto: «O amor ao próximo é uma estrada para encontrar Deus; inversamente, fechar os olhos ao próximo torna-nos cegos também diante de Deus».
Neste sentido, o Cristianismo não é apenas a «religião do logos»; é também – e bastante – a «religião do amor».
De resto, em Cristo o logos e o amor fundem-se. Para Jesus de Nazaré, «o logos torna-se verdadeiro alimento para nós como amor».
Aqui, «política e fé tocam-se».
É evidente que a Igreja «não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado, mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça».
Não basta, porém, a competência profissional. As pessoas, «têm carência de humanidade, precisam da atenção do coração».
Cabe-nos, por isso, empreender não apenas na habilitação intelectual e na preparação técnica, mas sobretudo na formação do coração.
Daí que o programa do cristão, segundo Bento XVI, seja «um coração que vê».
E só o coração que vê a pessoa que padece consegue ver o Deus que Se compadece!