Antes de tecer qualquer consideração, importa fazer um ponto prévio, se quiserem, uma manifestação de interesses, abrangente e transversal. Ao longo da minha vida, quer pessoal, quer pela via do trabalho, sobretudo esta, que já leva 45 anos, fui conhecendo, futuros profissionais em todas as áreas da administração interna, da justiça e das forças armadas, desde o simples soldado, ao agente, às mais altas patentes em todos os ramos, sem faltar, claro, está, os inúmeros secretários de Estado e ministros(as) das respetivas tutelas. Assumi, com muita honra, a partir de 2006-2020, se a memória não me engana, as funções de juiz social, no Tribunal de Menores de Braga, função de grande responsabilidade que me confrontou com uma realidade ainda mais dura que a profissão de jornalista, que exerci ate 2004, deixava adivinhar, mas não com a crueldade e a dureza que o exercício de julgar podia deixar adivinhar, Quando assumi essas funções, já tinha a meu cargo (e da minha família) a responsabilidade de acompanhar e orientar dois irmãos, institucionalizados desde bebés, no Colégio S. Caetano, num projeto notável de apadrinhamento e de afetos que permitiu que hoje sejam seguramente homens com um percurso de vida próprio e um grau de autonomia que nos orgulha. Feito o intróito, a única palavra que me vem à cabeça para descrever o que se está a passar nas principais forças de segurança (PSD e GNR) é tristeza, mas podia juntar-lhe uma outra sem estar aqui a ser demasiado alarmista: caos. O que tem vindo a público, sobre o comportamento de agentes de autoridade, está longe de corresponder à realidade dura e crua que atinge transversalmente as forças de segurança, com acusações de violações dos direitos humanos básicos de detidos, corrupção, tráfico de estupefacientes, violência doméstica, entre outros crimes tipificados no Código Penal. Esta semana, a descrição da violência gratuita exercida por dois agentes da PSP, em Lisboa, é de uma crueldade arrepiante. Infelizmente, não é a primeira vez e temo que este tipo de atitude continue, mesmo que descobertos e condenados e que esta possa servir de exemplo para os demais. Parece existir entre alguns agentes a sensação de impunidade, associada a um prazer sádico que lhes confere uma aura do quero, posso e mando a ponto de partilhar a sua patologia com outros. Ninguém duvida que isto não se ensina, que os agentes não recebem instruções nesse sentido e, acredito, que na maioria dos casos, não foi em casa que receberam os ensinamentos para conduzirem a sua ação da forma como todos podemos ler. Agora que se abriu mais um concurso para o ingresso de centenas de novos agentes na PSP, ao qual concorreram milhares de pessoas, coloca-se a questão se a avaliação que é feita aos candidatos obedece aos mais altos padrões de rigor na avaliação de eventuais patologias do foro psiquiátrico, ou, se, por outro lado, estamos perante agentes, cuja fragilidade emocional, baseada em valores e princípios distorcidos, onde a violência gratuita, assimilada nos écrans, alimentada pelo ódio partilhado nas redes sociais e, partilhadas por grupos profissionais, vai sendo construída por dentro. É pública a existência de tais grupos que alimentam o ódio às minorias, que propagam o abuso e a violência gratuita e radical. O que não se percebe é o que andam a fazer os superiores hierárquicos que sabem disto, – e eu sei que eles sabem que eu sei que eles sabem. Não menos importante, é a taxa de suicídios entre agentes da PSP e da GNR que continua elevada, o que reforça a necessidade de um acompanhamento em permanência das suas condições de trabalho, mas também do seu estado de prontidão para o exercício de funções que exigem um estatuto à prova de “bala”.