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Aurora Domini

 


 

Aurora Domini (“Aurora do Senhor”), assim se intitulava o magnífico concerto que o Coro e a Orquestra do Distrito de Braga, sob a direção de Inês Teixeira, nos ofereceram na noite do passado dia 23, na Basílica dos Congregados.

O concerto começou com a magistral execução, a cappella, de Even When He Is Silent, uma peça coral contemporânea do compositor norueguês Kim André Arnesen (nascido em 1980). Composta em 2011, trata-se de uma das suas obras mais populares e mais amplamente interpretadas. A letra remete para um texto escrito numa das paredes de um campo de concentração, na Alemanha, encontrado após a Segunda Guerra Mundial: I believe in the sun even when it´s not shining. I believe in love even when I feel it not. I believe in God even when He is silent1. Acreditar no sol, no amor e em Deus, mesmo quando não se percebem ou parece estarem ausentes, faz do texto uma espécie de credo sobre a confiança e a esperança inabaláveis, em situações difíceis.

Num estilo contemporâneo, com harmonias ricas e uma escrita coral que realça tanto o texto quanto a beleza sonora, a peça começa de forma tranquila e introspetiva, cresce em intensidade na frase sobre o amor e termina novamente em reflexão serena. A par de Candle Hymn e de Flight Song, Even When He Is Silent é uma das obras mais executadas deste compositor que, na sua música coral, combina profundidade emocional com linguagem musical acessível e evocativa.

De seguida, com acompanhamento instrumental, foi executada a Sunrise Mass (“Missa ao nascer do sol”), de Ola Gjeilo, compositor norueguês nascido em 1978. Escrita entre 2008 e 2010, para coro misto e orquestra de cordas, é, ao mesmo tempo, uma missa latina e uma espécie de “viagem espiritual”, com uma linguagem muito cinematográfica. Começa ampla, etérea, quase “intergaláctica”, torna-se progressivamente mais humana e culmina numa sensação de luz e de presença consoladora. Apesar de usar o texto tradicional da Missa (Kyrie [The Spheres], Gloria [Sunrise], Credo [The City], Sanctus/Benedictus e Agnus Dei [Identity & The Ground]), o foco não é estritamente litúrgico, mas antes contemplativo e imagético.

A sua linguagem musical regista uma forte influência do cinema e de compositores como Whitacre, Arvo Pärt e Morten Lauridsen. Feita de harmonias planantes e de texturas luminosas, apresenta uma orquestração de cordas simples, mas emotiva, criando um clima contemplativo, quase meditativo. Por esses motivos, agrada tanto a músicos clássicos quanto a ouvintes sem formação musical.

Finda esta belíssima peça, o registo mudou e foi executada uma música que não nasceu como canção de Natal, mas veio a tornar-se uma das melodias natalícias mais reconhecíveis do mundo: Carol of the Bells (“canção [canto] dos sinos”). Composta pelo ucraniano Mykola Leontovych, no início do século XX, com o título Shchedryk e baseia-se numa antiga canção folclórica ucraniana de Ano Novo. A letra tradicional fala de uma andorinha que anuncia abundância e boas colheitas. 

Em 1936, o maestro americano Peter J. Wilhousky escreveu uma nova letra em inglês e associou o padrão rítmico repetitivo à ideia de sinos a tocar, daí o nome Carol of the Bells. Baseia-se num ostinato de quatro notas, muito marcado, que se repete ao longo da peça, em modo menor, criando um clima tenso e encantatório. Tornou-se uma das músicas mais conhecidas de Natal em filmes, séries e concertos, amplamente gravada e adaptada. 

Por último, foi executada a obra coral Luminous Night of the Soul2, do compositor norueguês Ola Gjeilo, para coro misto, piano e cordas, peça que, composta em 2008, apresenta como caraterísticas principais uma linguagem tonal, cinematográfica e muito emocional, misturando a tradição coral europeia com harmonias modernas e criando uma atmosfera intensa, expansiva, quase luminescente, como o título sugere. De forte espiritualidade e transcendência, o texto sugere a ideia de atravessar momentos difíceis e encontrar a beleza e a luz no meio da escuridão interior. Quando se diz luminous, sugere-se o momento posterior à travessia, não apenas a escuridão purificadora, mas a iluminação que dela nasce. 

O Coro e a Orquestra do Distrito de Braga não se limitam àquilo que todos conhecem e executam, mas têm vindo a apresentar peças musicais de grande novidade e relevo. Numa noite fria de quase véspera de Natal, com uma Igreja cheia, a beleza e a riqueza destas peças musicais, assim como a sua execução irrepreensível criaram um ambiente tão luminoso que o título Aurora Domini se ajustou na perfeição a este excelente concerto. 


 


 


 

1 “Acredito no sol, mesmo quando ele não está brilhando. Acredito no amor, mesmo quando não o sinto. Acredito em Deus, mesmo quando Ele está em silêncio”.


 

2 A expressão parece ser uma reformulação de “noite escura da alma”, um conceito místico associado a S. João da Cruz, caraterizado por um processo profundo de crise interior e transformação espiritual, perda de referências, sensação de vazio e questionamento radical, culminando em clareza, desapego e união espiritual. 

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

29 dezembro 2025