Já perto de Belém – mas ainda não em Belém – Maria sentiu que estava a chegar a hora de dar à luz.
Mas como seria possível entrar em trabalho de parto no meio de um descampado? Nenhuma casa se avistava a não ser uma gruta à beira do caminho.
Condições? Nenhumas. O lugar mais habitável encontrava-se debaixo da terra. Pouca luz. Só que – primeiro prodígio –, quando Maria na gruta entrou, uma grande luz a inundou.
Devidamente instalada, foi a vez de José se dirigir para Belém a fim de uma parteira encontrar.
O passo era apressado. Acontece que – novo assombro – repentinamente deixou de poder andar. Erguendo os olhos para o céu, notou que os pássaros estavam imóveis.
Voltando a olhar para a terra, reparou que os ventos deixaram de soprar e que as folhas das árvores não faziam o mais pequeno movimento.
Ao longe, avistou lavradores em atitude de quem estaria a comer. No entanto, os que pareciam mastigar, na realidade não mastigavam. Os que aparentavam tirar algo do prato nada conseguiam tirar.
Os que já estavam quase a colocar os alimentos na boca ficaram impedidos de o fazer.
Também havia umas ovelhas a ser incitadas por um pastor, mas não davam um passo: mantinham-se completamente paralisadas.
Enfadado, o pastor levantou a mão esquerda para as fustigar com o cajado, mas a mão ficou suspensa no ar.
As águas do rio deixaram de correr e uns cabritos, perto da corrente, foram incapazes de abrir a boca e beber.
Em suma, toda a natureza interrompera o seu curso e todo o movimento se deteve.
Quando José se aprestava para sequenciar o percurso à procura de uma parteira, eis que aparece uma jovem anunciando a chegada da sua ama (Zelomi), que exercia esse ofício.
Ao entrarem os três na gruta, viram que Maria já dera à luz, sozinha, estando sentada com o Menino nos braços.
O pasmo dos circunstantes não parava de crescer. Nenhuma mancha de sangue no recém-nascido, nenhum sinal de dor na parturiente.
O Menino era leve e não chorava. Pelo contrário, sorria para toda a gente. Avisados por um coro de anjos, um grupo de pastores levou leite fresco e queijo.
Passados alguns dias, a Sagrada Família acomodou-se num abrigo que oferecia um pouco mais de conforto.
Maria alojou o Menino entre um pouco de feno, envolvido em panos. A mula, que os transportara, juntamente com um boi daquela zona, não largaram o Menino, adorando-O e aquecendo-O com a Sua respiração.
Mesmo que não tenha sido assim – estes dados pertencem à literatura extrabíblica –, estamos perante cenários de uma beleza sem fim.
É tempo de voltar a parar a fim de melhor sentir Jesus chegar. Afinal, são os esponsais de Deus com a humanidade. E só uma história de amor como esta transformará o horror numa interminável festa!