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Não deixem os “empresários” em paz

 

 

Li com muita atenção e, confesso, sem surpresas, a entrevista dada ao Expresso pelo empresário José Teixeira que conheço desde a minha juventude quando ele ainda era estudante universitário. Sem surpresas porque a sua ação disruptiva no mundo dos negócios fazia adivinhar uma atitude pouco condescendente com a agenda (indigna) e trapalhona com que este Governo, sem cobertura do eleitorado que o escolheu, decidiu, a mando de uns velhos do Restelo, romper com a paz social, invertendo o caminho que estava a ser trilhado. A sua expressão “deixem os trabalhadores em paz” tem, por isso, uma relevância que merece ser destacada pelo seu duplo sentido: a representação de uma nova cultura empresarial presente, infelizmente, na cabeça de poucos empresários que assim se podem designar e uma crítica contundente e certeira aos que continuam a diabolizar a força de trabalho a quem apontam todos os males, raiz e consequência do que corre mal no mundo dos negócios. Contudo, a economia portuguesa não cresce mais, a produtividade é o que é, a inovação está longe de ocupar um lugar de destaque nas suas prioridades e falar de risco não faz parte do seu dicionário nem é prioridade estratégica. Chamar-lhes a muitos deles empresários é um sofisma, ou, se preferirem, um insulto aos que investem no conhecimento, desde logo na sua própria formação. Os últimos dados conhecidos são causa e consequência de um drama que nos trama a todos: “cerca de 48% dos empregadores em 2021, não tinha o ensino secundário completo, colocando o país no topo da UE nesse aspeto e ligando-se a níveis de produtividade mais baixos…”. Os números são do Instituto +Liberdade e reveladores de uma realidade que nos coloca no topo da Europa. O estudo é claro: “Os empresários/gestores das empresas têm um papel determinante e impulsionador na dinâmica empresarial e na economia. A baixa qualificação dos empregadores portugueses ajuda a explicar, em parte, os baixos níveis de produtividade do nosso país, perante o crescente número de desafios que estes enfrentam na sua atividade, e para os quais a formação e qualificação é um fator chave de sucesso: desde a capacidade de adaptação aos padrões tecnológicos mais modernos, na inovação de produtos ou serviços, ou até na própria gestão de recursos humanos (líderes mais qualificados tendem a valorizar mais a formação contínua dos seus colaboradores)”. Esta é a evidência de factos que nem Luís Montenegro nem o seu Governo podem desmentir; surpresa é ver que, pertencendo a uma geração educada sob uma prisma do empreendedorismo e da inovação, dizendo-se social democrata, continue a achar que vale a pena acenar do alto espinhoso da arrogância com salários altos quando a classe empresarial que pode sustentar o seu discurso milagroso é a mesma (a maioria) que rejeita tratar os colaboradores como parceiros estratégicos, que não quer saber da educação ou da sua saúde, que não se preocupa com a inovação, que foge das suas obrigações fiscais (só se não puder), que alimenta a intriga e que apenas olha para a sua barriga, não tratando de cuidar da barriga que todos os dias o alimenta. Deixar os trabalhadores em paz já não chega, é preciso mesmo não deixar os referidos empresários em paz, obrigá-los a mudar de rumo e criar um pacto para uma segunda geração de políticas do emprego digno alinhadas com as boas práticas desenhadas pela Comissão europeia a que Portugal aderiu e que este Governo quer rasgar. As palavras do industrial bracarense deveriam ter tido eco no mundo empresarial e no palácio de S. Bento, merecido reações dos partidos e até dos candidatos presidenciais, mas ficarão registadas pela coragem e por terem tocado na ferida onde ela mais dói. Sem mais, caro José Teixeira.



 

Paulo Sousa

Paulo Sousa

14 dezembro 2025