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De luto pelo futuro: escutar as perdas invisíveis

Há perdas que não se veem, mas que se sentem em cada batimento interrompido, em cada berço vazio, em cada corpo que se preparou para acolher a vida e ficou suspenso entre a presença e a ausência. A perda gestacional e neonatal é uma dessas dores silenciosas, tantas vezes esquecida por uma sociedade que corre depressa demais para compreender o ritmo lento do luto.


 

Durante esta semana assinala-se a Semana Mundial de Consciencialização sobre a Perda Gestacional e Neonatal – um tempo para dar voz ao que é vivido em silêncio e reconhecer que há lutos sem datas, mas inscritos no corpo e na alma de quem os vive.


 

Muitas mulheres descrevem a perda como uma fratura invisível: o corpo sangra, contrai, produz leite, enquanto o mundo continua como se nada tivesse acontecido. É-lhes pedido que “sigam em frente”, que “tenham fé”, que “tentem novamente”. Mas o corpo lembra — o tempo da espera, o som do coração que um dia se ouviu, o nome que já existia, o quarto que começava a ser preparado.
É o corpo que carrega, no mesmo espaço, a vida sonhada e a ausência concretizada.


 

O silêncio social que envolve estas perdas acrescenta dor à própria morte. Quando a morte é vivida em segredo, não se torna mais leve – apenas mais solitária. Faltam palavras, gestos e rituais que ajudem a transformar a dor e o vazio em memória. Quando um bebé morre antes ou logo após nascer, a sociedade hesita. Não sabe o que dizer, onde colocar essa dor, como nomear um filho que viveu pouco tempo ou que nunca chegou a respirar.


 

Muitas mães saem do hospital com os braços vazios e o coração cheio de perguntas que ninguém ousa escutar. Ninguém as prepara para o contraste entre o que foi sonhado e o que se desfez.
É este silêncio que me move como doutoranda em Sociologia, na Universidade do Minho. O meu estudo, “De Luto pelo Futuro: A experiência do tempo na perda gestacional e neonatal”, nasce da escuta de mulheres de Portugal e do Brasil. 


 

Cada entrevista é mais do que um dado científico – é um ato de reconhecimento. Essas vozes revelam falhas num sistema que ainda não sabe acolher a dor e a complexidade de um luto que não cabe nas estatísticas. Falam de licenças curtas, de profissionais sem formação emocional, de olhares que desviam e de frases que ferem, mesmo quando “bem-intencionadas”. Mas falam também de força e reconstrução – da necessidade de criar rituais, guardar recordações e dar nome e lugar a quem existiu, ainda que por um breve instante. Mais do que chorar o passado, estas mulheres choram um futuro interrompido – o aniversário que não chegou, o primeiro dia de escola que nunca será, o abraço imaginado que ficou suspenso no tempo.


 

O luto gestacional e neonatal é, por isso, um luto sem tempo, que não cabe nas normas sociais nem nas políticas públicas. É urgente que a sociedade reconheça a legitimidade deste luto. Que saiba acolher, escutar, cuidar, pois falar da perda não prolonga a dor. Pelo contrário, dar-lhe voz é um ato de amor e de consciência. É reconhecer que o vínculo entre mãe e filho não se mede em semanas de gestação, mas na intensidade do sentir. E é também um gesto político: o de recusar que a morte — sobretudo a que acontece cedo demais — seja varrida para debaixo do tapete da pressa social.


 

Que esta semana nos lembre que há mães sem filhos nos braços, mas com filhos no coração.
E que o futuro só será verdadeiramente humano quando aprendermos a dar lugar às ausências — porque só assim poderemos transformar o silêncio em memória e a dor em cuidado.

Clarisse Queirós

Clarisse Queirós

14 outubro 2025